Labirintos do inferno - Hélio Duque
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de abril de 1998
Hélio Duque 
A Rhodia Nutrição Animal, fábrica localizada no pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia, única unidade industrial da América Latina que produz metionina, substância usada na engorda de frangos, encerrou suas atividades. A razão? O fornecimento do produto será feito pela Rhodia sediada nos Estados Unidos. Seria uma fábrica obsoleta e ultrapassada tecnologicamente? Não, ao contrário. A unidade seria lucrativa? Sim. Basta constatar que o consumo nacional de metionina atinge 18 mil toneladas anuais. A produção da fábrica agora fechada era de 15 mil toneladas/ano. As outras 3 mil toneladas eram importadas. Agora a importação será na integralidade do consumo brasileiro. Uma tragédia.
E o emprego? Quase 500 trabalhadores desse setor petroquímico perderam os seus postos de trabalho. Numa última e desesperada tentativa os funcionários fizeram uma proposta à direção da empresa objetivando a compra da unidade. Existe mercado e a fábrica é lucrativa. Já que o BNDES é tão pródigo no financiamento de grandes negócios para grupos consolidados ou para outros notórios aventureiros, deveria tomar a frente e impedir que esse verdadeiro atentado contra a economia nacional se perpetre com passividade bovina.
O fato descrito acima é grave, gravíssimo. Serve para demonstrar o outro lado da globalização: fecha-se uma fábrica no Brasil, levando o desemprego e a desesperança a centenas de famílias, mas se garante o emprego e o mercado cativo para a unidade localizada nos Estados Unidos. Serve para explicar o porquê do boom do crescimento norte-americano nos últimos anos e o seu nível de desemprego decrescente. No caso brasileiro os prejuízos são terríveis. Aumenta o desemprego, agravando a questão social, eleva os gastos internos pela importação que se fará, de ora em diante, para as nossas granjas daquele insumo básico para a engorda de aves.
Infelizmente o caso da Rhodia não é único. A fatura do desemprego, como consequência, vem assumindo proporções alarmantes. De norte a sul os índice mensais de desemprego crescem numa proporção alarmante. No Paraná, recentemente, a Associação Comercial, através do Serviço de Proteção ao Crédito, constatou que o número de inadimplentes na região metropolitana de Curitiba atingia 428.520 pessoas. Um dado assombroso e assustador. Igual levantamento da Associação Comercial e Industrial de Londrina não encontrou cenário diferente: 95.374 pessoas constavam na lista de seprocados. A consequência de tudo isso é uma ativa destruição do setor de varejo pela quebradeira de um grande número de pequenas e micro empresas, agravando-se com isso a questão do emprego de modo irreversível.
Resta indagar: o que isso tem em relação à fábrica da Rhodia a ser fechada em Camaçari? Infelizmente tudo. Governar é enfrentar as questões dramáticas de frente, não tergiversar na defesa dos interesse da cidadania. Nada mais desesperador para uma família do que enxergar a miséria rodando a sua porta. E para o trabalhador ficar sem emprego é quase como penetrar nos labirintos do inferno. Por isso o caso da Rhodia é da maior gravidade. Imaginem outras organizações seguindo os seus passos. São empregos retirados dos brasileiros, para garantir os mesmos postos de trabalho para os que vivem acima do Equador.
- HÉLIO DUQUE é economista e ex-deputado federal.


