Kuerten, as derrotas e o tênis no Brasil
Gustavo Kuerten, tão venerado pela mídia brasileira, vem sendo motivo de chacota em diversos órgãos de imprensa após as últimas derrotas sofridas, o que me levou a escrever este artigo com o objetivo de em poucas linhas fazer uma análise sobre o tênis no Brasil, incentivos, organização, torneios etc. Sinto-me credenciado para tal por ser jornalista, tenista, assessor de imprensa de diversos torneios de tênis e pai de duas crianças, Raíssa com 8 e Eliza com 12 anos, praticantes diárias do tênis.
No Brasil temos a Confederação Brasileira de Tênis e as diversas federações estaduais. A confederação organiza, em julho, um torneio nacional de juvenis na Academia de Tênis de Brasília, um dos melhores clubes do Brasil para a prática deste esporte, atualmente sede de torneios profissionais.
No último juvenil chamou-me atenção a falta de patrocínio, mesmo, com fenômeno Guga. Os empresários brasileiros não deram suporte financeiro ao evento, o que dificultou tudo. Além disso, os torneios, quando não são nacionais e sim regionais, raramente têm na parte organizacional árbitros auxiliares ao árbitro geral, tendo apenas um árbitro. Crianças a partir dos 8 anos quando estão disputando na categoria 10, têm que jogar e marcar os pontos, muitas vezes se estressando e desestimulando a ela e aos pais.
Tratemos agora do piso. Grama, como a de Wimbledon, o seu clube tem? No Brasil, são raros os locais com estes tipos de piso, contamos nos dedos das mãos. E saibro como os de Roland Garros, é impossível. E de piso rápido como o do US Open, conservados (para não contundir os atletas, pois puxam muito a articulação e o impacto é muito grande) são poucos. É muito difícil praticar profissionalmente este esporte neste País.
Os chamados professores de tênis raramente são formados em cursos internacionais. Em sua maioria são ex-jogadores ou boleiros que se metem a ensinar tão belo esporte, ou interessados como eu, que notando a deficiência nesta área, metem-se a dar aula para os seus. Baseiam-se na leitura para ensinar o esporte. Os títulos são poucos, os professores despreparados. Dá pena.
Lembro-me, para ilustrar, que joguei um torneio na AABB do Distrito Federal, onde as quadras ficam ao lado de um bar, o bar da piscina, e o som que auxiliava na concentração para a prática do esporte era o pagode, alguns decibéis acima do normal. Ora, é uma vergonha. E mais ainda é ter escutado no Globo Esporte do dia 25, que a semelhança entre Guga e o time do Corinthians é que os dois tinham perdido seus últimos cinco confrontos.
O jogo mental, concentração e tranquilidade, não possui literatura, não possui especialistas, não possui profissional que se interesse pelo assunto. Para dizer que não possui, possui pouquíssimos, o que pode traduzir a derrota de Gustavo Kuerten.
Quando à parte de desenvolvimento físico conjugado com uma boa alimentação, também os profissionais especializados deixam a desejar. Portanto, Gustavo Kuerten tem absoluto crédito. Ele fez muito mais que qualquer tenista homem brasileiro, vivo ou morto e tem crédito absoluto, podendo perder por muitas vezes. Ele já elevou e fez muito pelo tênis, mundial e nacionalmente, virou ídolo e chegou a disputar no país do futebol e do automobilismo popularidade com Pelé e Airton Sena. Ele, na verdade, num país que desvaloriza a tudo neste esporte, já fez por muitos séculos e séculos amém.
Saibamos valorizar nossos ídolos na vitória e na derrota, para que possamos formar um caráter nacionalista, pois é o patriotismo conjugado com o desenvolvimento, o progresso, que faz com que os povos se desenvolvam e acreditem em seus potenciais. Muito obrigado Kuerten, e saiba que você é um vencedor e fez de nós todos, apreciadores deste esporte, vencedores, pois, é lindo ver, em favelas, crianças jogando descalças, com bola de borracha e raquete de madeira, tênis, e não frescobol, contra um paredão.
- ANAND RAO é jornalista em Brasília





