Para começar: não se trata de nenhuma piada e nem de nome de japonês. Antes de fazer rir, o que se pretende aqui é estimular o bom exercício da língua portuguesa. Aviso, antecipadamente, que sou apenas admirador do bom português. Só que, para quem gosta do ramo está ficando difícil, e desconfortável, viver e conviver com tantas aberrações contra o vernáculo verde-amarelo. O comércio está demais na agressão à escrita límpida e linda. KALSI GOSTOZU, para espanto meu, é o nome de uma casa comercial, de uma bela capital deste país. Entendi que, por se tratar de loja de sapatos finos, pretenderam dizer calce gostoso, macio e confortável, tudo na busca legítima da clientela. A placa luminosa, erguida em movimentada avenida, assusta pelo tamanho, pela extravagância das cores e pelo desrespeito à ortografia, sem se importar com os bons dicionários nas terras brasileiras.
Há alguns anos li num jornal uma curiosa notícia. O governo italiano (ou alguma entidade governamental de lá) aplicou severa e apavorante multa em um estabelecimento comercial. Motivo: no letreiro, sobre a porta de entrada, havia erro de ortografia. Um simples erro de ortografia e não houve como pedir clemência: o comerciante pagou caro e teve que trocar a placa dentro das normas vigentes. Se insistisse no erro, teria seu comércio fechado para sempre. O que impediu que outros afoitos e atrevidos atentassem contra a língua e a norma italianas.
No Brasil, as trapalhadas contra o idioma, nas placas e anúncios comerciais, viraram o samba do analfabetismo doido e retrógrado. Não sei se, por aqui, há alguma lei que facilita e estimula estas mutações inestéticas e inúteis nos vocábulos. O que se constata, e irrita, é que o abuso das letras K e S (trocada com C e/ou Z) é de lascar e desesperar. Nossas crianças simplesmente entram em parafuso, com o que aprendem nas escolas e com o que deparam nas ruas e nos shoppings e lojas. E nossos jovens, tradicionalmente preguiçosos para o aprendizado da pátria língua, não dão a mínima para a questão, como se a coisa fosse absolutamente normal e na boa.
Evidentemente que alguma coisa precisa ser feita e já. Sem pieguice pueril e nem perfeccionismo à la Rui Barbosa. A placa indigitada aqui é uma, dentre milhares e milhares, por todo este Brasil continental, e indiferente à elegância de uma boa escrita. A mobilização em defesa do escrever certo, correto, sério e coerente já devia ser uma realidade em nosso meio. Não se pode aceitar, já nas fímbrias do ano 2000, que nossas ruas e praças comportem tanta ignorância e parasitismo nas palavras, com desgastante prejuízo para nossa cultura. E olhem que as palavras são um grande patrimônio para uma sociedade livre e democrática; e a defesa desta riqueza necessita de compromisso e vergonha na cara. Como no exemplo dos italianos.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG).

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