Filhos devem ver os pais como modelos

Relação descartável chegou ao âmbito familiar

A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou, nos últimos dias, que pretende lançar uma estratégia global para combater o consumo excessivo de álcool entre jovens. Anualmente, são 2,3 milhões de mortes prematuras. No Brasil, a decisão vem em momento oportuno: recente estudo realizado pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) mostra que 48,3% dos adolescentes na faixa etária de 12 a 17 anos consomem bebidas alcoólicas regularmente.
  Os números despertam a pergunta: por onde anda a família, liderada pela figura dos pais? Para o sociólogo e professor da UEL Paulo Sérgio Negri, o papel das famílias é determinante. Em entrevista à FOLHA, Negri avalia a condição atual da família e sentencia: é preciso, urgentemente, dar bons exemplos aos jovens, evitando, assim, o primeiro gole.
  Na relação jovens X álcool, até que ponto a culpa incide sobre a família?
  Precisamos analisar a situação sob dois aspectos. O conceito que tínhamos de família há 15, 20, 30 anos mudou. Se antes os pais cuidavam dos filhos, e vice-versa, hoje temos a desagregação da família. Com isso, o ideal de família que se apregoa e se tem é bem diferente daquele que um adolescente encontra em casa. Um exemplo: ao perceber o pai ou a mãe bebendo ‘‘socialmente’’, o jovem vai fazer uso do álcool, muitas vezes, encarando isso como algo natural.
  O senhor acredita que há um abismo entre o que é dito para fazer e aquilo que se faz fora de casa?
  Sem dúvidas. Existe um abismo muito maior que o abismo físico: todos convivem no mesmo ambiente e se relacionam de uma maneira muito isolada. Os valores religiosos, espirituais, morais, sociais, atualmente se enfrentam dentro do âmbito familiar. Resultado: os jovens percebem que os discursos de pai e mãe não conseguem mais atingi-los. À medida que há um abismo nessas relações e que o ‘‘ter’’ supera o ‘‘ser’’ há a dificuldade no diálogo, na comunicação.
  Qual sua sugestão para a retomada do diálogo?
  É importante observar que os tempos são outros: cada família tem um ritmo de funcionamento e ela se reconfigurou. Hoje, além da figura do padrasto e da madrasta, temos casais liberais, bem como casais homossexuais. Independente da configuração da família, a saída é uma prática agregadora, isto é, o almoçar junto, o conviver, as relações humanas. Precisamos desligar as TVs, nos desconectarmos da internet urgentemente.
  O senhor considera a relação com as máquinas muito prejudicial?
  A questão é preservar as relações humanas e não desligar, em definitivo, as máquinas. O correto, especialmente para jovens, seria estipular horários. A partir do momento que se preconiza a relação ‘‘homem e máquina’’, em que o indivíduo parece estar com todo mundo, mas na verdade não está com ninguém, rebatemos nas questões afetivas entre entes queridos. Além de almoçar, uma boa conversa, acompanhar o filho nos deveres de escola, entre outros hábitos peculiares às décadas passadas, precisam ser retomados urgentemente por parte dos pais.
  Precisamos, então, dar um passo atrás?
  Com certeza. Além do diálogo, precisamos rediscutir a questão dos limites. Os filhos têm que ver o pai e a mãe como modelos. Se não vejo pai e mãe como modelos, fico deslocado. Como um pai pode dizer a um filho ‘‘você não pode fumar maconha, cigarro ou ingerir álcool’’, se, no dia-a-dia, esse pai se alcooliza? Uma vez que o pai ou a mãe não tem um comportamento moral afinado, isso vai incidir sobre o filho. Devemos caminhar na contramão do que a sociedade joga no pedestal nos dias atuais.
  Muitos dizem que a família é uma instituição falida...
  Não consigo imaginar a sociedade sem a família. O homem tem a necessidade de se juntar à mulher, de ter filhos e construir seus relacionamentos em cima desse núcleo, é uma referência. Percebemos que, onde não há uma referência do pai e da mãe, temos agregados psicológicos negativos. Não que isso determine a conduta moral, mas a referência paterna e materna é fortíssima. Por uma satisfação psicológica e psíquica, precisamos da família, mesmo com o individualismo que impera hoje, com as modernidades tecnológicas que isolam mais as pessoas, do teclado virtual ao fone de ouvido.
  Ainda há tempo de reverter o quadro?
  Sim, mas sempre com consciência de que, à medida que preconizo o bem material, perco o bem imaterial. Mas diria que é quase impossível, pois contribuímos para formar jovens que vão dar continuidade à essa sociedade caótica em que, da comida às relações interpessoais, o fast food predomina. A sociedade consumista tende a descartar tudo o que consome e, infelizmente, isso chegou aos valores e necessidades emocionais familiares.

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