Conceito elaborado para estudar e entender relações que ocorrem dentro de uma cultura, a Metacontingência procura explicar os porquês de determinadas práticas culturais e sua manutenção ou alteração durante certo período de tempo. Em evidência como nunca, esse raio-x da cultura, vinculado ao Estatuto da Criança e do Adolescente e em intersecção com as demais áreas, traria crianças e jovens cientes de que seus atos gerariam consequências.

Em entrevista à FOLHA, o psicólogo Roberto Alves Banaco, diretor pedagógico do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento e ex-presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental, vai além: mais que pensar em consequências, é preciso experenciá-las. O quanto antes.

A intersecção de todas as áreas com o Estatuto da Criança e do adolescente traz que saldo à prática coletiva?
Traz exatamente a prática de uma cultura que procura defender sua própria continuidade. Reconhecendo que uma cultura só sobrevive se puder proteger seus membros e eliminar a competição interna muito arraigada (condições que colocariam em risco a continuidade de uma cultura), várias áreas têm se preocupado e se mobilizado para evitar problemas que coloquem a cultura em risco. É nesse contexto histórico e científico que o Estatuto da Criança aparece como uma ação política. Política no sentido de criar condições estratégicas de enfrentamento de problemas correntes de grande risco para a cultura.

Nos tempos em que a violência se manifesta em escolas e entre crianças e jovens, por exemplo, os autores de tais práticas poderiam parar para pensar nas consequências?
A questão não é meramente de pensar em consequências, mas de experienciá-las. Em geral, para controlar o comportamento dos indivíduos que ainda não passaram por certas consequências, devemos elaborar regras de conduta. No entanto, para que essas regras tenham força de controle sobre o comportamento dos indivíduos, é necessário que elas descrevam com precisão as consequências dos atos que recomendam ou dos atos que não recomendam. Este é um grande problema nos dias de hoje: as regras podem ser desafiadas porque as consequências previstas não acontecem. Isso enfraquece o comportamento governado por leis, recomendações, instruções, conselhos e ordens.

Mas a realidade está mudando, não?
Veja bem: se você perguntar para as pessoas se elas sabem o que fazer para evitar Doenças Sexualmente Transmissíveis, elas saberão responder, ou seja, estão ''cientes''. Se você perguntar-lhes se elas se precavêem das doenças, elas estão cientes da resposta que devem dar, e obviamente a maioria dirá que ''sim''. Então, como explicar o grande número de casos de gravidez indesejada, ou o avanço das estatísticas de DSTs? Somente porque as pessoas sabem o que fazer, dizem que fazem, mas não fazem. Se for perguntado a uma criança ou adolescente se ele deve constranger seu colega, ele também dirá que não deve. Mas ele constrange. É necessário assumir que o que muda comportamento não é (apenas) o que se diz. É o que se faz com aquilo que é feito. Tudo é uma questão de consequências concretas. Melhor será que as consequências sejam sempre boas, separando comportamentos saudáveis dos não saudáveis. Dê consequências boas para comportamentos saudáveis e eliminaremos gradativamente os maus comportamentos.

Quando falamos em culpados de uma geração muitas vezes chamada de descartável, a quem podemos atribuir a culpa?
Melhor não falarmos de culpas, mas de responsabilidades. A cultura como um todo é responsável, incluídas aí as crianças e os adolescentes. Não temos ensinado às nossas crianças conceitos básicos tais como empatia ou a regra de ouro (''não faça ao outro o que não gostaria que fizessem com você''). Há algum tempo nossa prática tem sido mais próxima a ''levar vantagem em tudo'', em um mundo de misérias. Isto acirra a competição interna e o valor ético do ''primeiro eu'' fica mais frequente, o que enfraquece a cultura. É uma prática bastante difundida desde o tempo de Maquiavel, que ensinava: ''Divida para poder governar melhor''. Talvez essa esteja sendo a estratégia de algumas pessoas que detêm o poder. Incentivar a competição interna, porque podem assim controlar melhor cada indivíduo.

Serviço: O psicólogo Roberto Alves Banaco realiza palestra neste sábado (27) na Faculdade Pitágoras. Outras informações pelos telefones (43) 3325-0005 ou 3324-4740.

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