Casar, ter filhos, educá-los para a vida. O que até tempos atrás era projeto de vida para muitos jovens, adquire a cada dia o desdém com frases como ''família, uma instituição falida'' ou exemplos de falta de educação saltando aos olhos liderados por crianças e jovens sem limites.

Para a professora carioca Maria Leonor da Silva Teixeira, a desestruturação familiar não pode mais ser encarada como um fato isolado, e sim como um grave problema de ordem social, com consequências que podem comprometer até mesmo o futuro do País. Em entrevista à FOLHA, Leonor, que participou de uma série de conferências no Ciclo de Estudos promovido pela representação regional da Associação dos Diplomados na Escola Superior de Guerra (ADESG) em Londrina, dispara: a situação urge por reformas sérias e concretas.

A quais fatores a senhora atribui a desestruturação familiar?
Em primeiro lugar, precisamos levar em conta que as famílias deixaram de apresentar a unidade que tinham. Os jovens, hoje, estão sem parâmetros para seguir. Os pais saem para trabalhar e a liberdade rege o ambiente domiciliar. Resultado: os pais tentam ''compensar'' essa falta com as rédeas soltas. Os jovens precisam de limites. Precisam, também, saber de seus deveres e direitos. Mesmo trabalhando, os pais precisam encontrar tempo para o diálogo. Precisamos, urgentemente, resgatar a estrutura familiar, que é alicerce de qualquer nação.

Como essa desestruturação afeta a sociedade?
O jovem que cresce sem parâmetros também vai se tornar um pai de família. Se você tem uma criação deficiente, tende a levar essa criação para seus filhos. A falta de estrutura cresce, evolui. Se você aprende de forma errada, vai ensinar errado. O mesmo se sucede na educação. Se você tem uma educação de base deficiente, que forma pessoas com deficiência, esse processo se converte numa bola de neve, cria problemas sérios, volta e meia estampados nos noticiários nacionais.

O Estado também é uma vítima?
Sem dúvidas. Não à toa os jovens estão desligados em relação aos problemas do próprio País. Atualmente, há uma completa alienação. Poucos jovens se interessam pelos assuntos nacionais. Em pleno ano eleitoral, vemos jovens questionando o que está acontecendo? Negativo. Geralmente os jovens têm na ponta da língua a frase de que ''não é problema deles'', como se tudo fosse problema dos outros. Como podemos pedir a jovens que não foram conscientizados de que têm deveres e obrigações que tenham obrigações com a nação?

Para a senhora, o jovem precisa de ''rédeas curtas''? Apertar a corda não é o mesmo que oprimir?
Rédeas curtas não é opressão. Você precisa dizer ao jovem o que ele pode fazer e o que ele não pode fazer. E cobrar dele, controlar mais. Você acha que dando liberdade você está sendo bom pai ou boa mãe? Não! O jovem precisa se sentir amado, querido. Não é dando liberdade total para o jovem fazer tudo o que quer que você será um bom pai ou uma boa mãe. O jovem tem necessidade de alguém se preocupando com ele, que esteja atento ao que ele faz. Isso é muito importante para sua formação.

A gente percebe que o índice de mortalidade está aumentando de forma assustadora entre os jovens no Brasil. Isso faz parte do contexto?
Trata-se de um problema social muito grave. Moro em um centro grande e percebo que a criminalidade vem aumentando. O que um jovem delinquente tem como visão de futuro? O que a sociedade oferece para um jovem desse sair da criminalidade, sair do vício? Estamos diante de problemas sociais gravíssimos que, apesar de não serem resolvidos em curto prazo, requerem ações a serem implementadas agora.

Essa linha tênue passa invariavelmente pela educação?
Com certeza. Num país como o Brasil, que precisa se desenvolver mais, nós precisamos de jovens, de cérebros. Por tabela, precisamos investir em uma educação de qualidade. O Brasil apresenta um índice altíssimo de analfabetos funcionais. Isso é péssimo. O Brasil urge por quantidade, mas quantidade com qualidade.

E como reverter uma educação, em muitos casos, em estado terminal?
A solução passa por reformas sérias e concretas. Não se reprova mais ninguém. Se eu não sou reprovado, logo não preciso me esforçar para estudar. Resultado: criamos jovens despreparados para vivenciar as realidades e agruras de um mundo cada vez mais competitivo.

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