João Antonio Vieira Filho
A história recente do Paraná mostra um grande movimento migratório. No início deste século recebemos um grande contingente de pessoas oriundas de outros países, o que ocasionou a formação de um povo bastante miscigenado em nosso Estado. Essa miscigenação, no decorrer do século, trouxe uma série infindável de benefícios a todos os paranaenses.
Recebemos ainda um grande contingente de pessoas oriundas de movimento migratório interno, vindo para nosso Estado um infindável número de paulistas e, principalmente, de mineiros.
Todos são paranaenses, não somente aqueles que aqui nascem, mas, os que acolhem esta terra como sua, para desenvolver suas raízes, prover seus rendimentos, e efetivamente produzir.
Iniciam-se as culturas de café e algodão. Nossa região era essencialmente agrícola, empregando um número muito grande de pessoas - e, a bem da verdade, de famílias, pois até mesmo os filhos pequenos contribuíam no trabalho braçal, desenvolvido principalmente nas propriedades agrícolas.
Após 1964, nosso Estado mudou. Que as mudanças foram para melhor, ninguém duvida, pois tivemos o início do ciclo da soja.
Nesta mesma época, incentivada por um crescimento acentuado, nossa população rural, atraída pelos fáceis benefícios de saúde e moradia, e com as implicações discriminadas pela legislação trabalhista, foi atraída para as cidades, vindo a abandonar os campos. Se na cidade encontravam os benefícios dos governos, no campo encontravam o desemprego ocasionado pelas geadas e pelas mudanças de culturas rurais.
As restrições creditícias impostas ao País, principalmente nos anos 80 e 90, mostraram de modo realista que na sociedade uma pequena parcela ainda não havia encontrado o seu lugar. Aquelas pessoas não preparadas, sem cultura, sem profissão definida, sem conhecimento específico algum, não tinham mais condições para um real aproveitamento nas cidades, que exigiam um trabalhador cada vez mais especializado.
O campo não tinha mais condições de abrigar o retorno deste contingente de mão-de-obra, que continuava desqualificado, cujos pais ainda possuíam algum conhecimento de métodos rudimentares de cultura, e a zona rural já estava informatizada, sendo a maior parcela do trabalho, antes realizado por mãos humanas, agora, por máquinas agrícolas de última geração, que não cobram horas extras, não ficam doentes, não têm filhos, pouco exigem e muito produzem.
O que fazer?
Nossos governantes não se aperceberam que um segmento, não tão grande, mas de pessoas com poucas qualificações profissionais, estava a sofrer um deslocamento social muito grande.
E nada foi feito.
Em decorrência disso, vimos surgir um canal ideal para que um segmento com interesses políticos viesse a ocupar lugar neste espaço social: um movimento que aglutinava esta mão-de-obra menos qualificada e cujo motor eram as próprias dificuldades de adequar-se ao mercado de trabalho e prover o sustento pessoal de suas famílias.
Novamente, nada foi realizado, pois muito entendiam que nada era preciso fazer. Como surgiu o movimento, este deveria acabar. Porém, líderes com visões pragmáticas passaram a assumir o movimento e a exigir, dia a dia, posições maiores e melhores. As dificuldades somente aumentaram.
E, finalmente, chegamos a nossos dias.
Chegou a hora de dar um basta; de, como sociedade organizada, reconhecermos que realmente este Estado, que acolheu todos os povos de braços abertos, que conta com um parque industrial respeitável, que ingressará no novo milênio como uma grande força, está, nestes dias, a deixar seus filhos ao desabrigo.
Embora não devamos adotar posturas radicais, nem por isso as determinações judiciais devem deixar de ser cumpridas. Afinal, o que seria de um Estado sem lei? De um povo que não acata as determinações judiciais? De um poder que não cumpre as determinações de outro poder?
Se as decisões judiciais devem ser cumpridas, por outro lado também devemos, como sociedade, como um todo, encontrar meios e maneiras de acolher, novamente, no nosso meio estes nossos irmãos que estão ao desamparo.
Se algum dia eles foram iludidos, ao virem para as cidades, agora, com as desilusões impostas pela vida, devem acreditar que nós seremos capazes de encontrar fórmulas para a solução definitiva destas dificuldades.
O radicalismo a nada leva. Vamos nos reunir, e, de forma franca e aberta, elencar as reais necessidades e oportunizar, como sociedade, uma solução à nossa realidade paranaense. Por que as soluções não poderão ser encontradas no nível de microrregiões, fixando, por exemplo (é tão-somente um exemplo), um tempo mínimo de permanência em nosso Estado e procedendo a verificação da aptidão profissional dos desabrigados? Não podemos colocar uma família que conhece algo sobre erva-mate para plantar café, ou um cafeicultor para plantar trigo.
Quantos proprietários rurais já não estão conseguindo manter suas atividades? Isso acontece principalmente pelo fato de o setor arcar com o grande custo de implantação e manutenção do Plano Real.
Por que não unimos os dois segmentos? De um lado, o produtor que está neste momento vivendo grandes dificuldades; de outro, os sem-terra que desejam e querem trabalho.
Por que não fazer isso, oportunizando o recebimento das indenizações em títulos públicos, que seriam aceitos em pagamento de dívidas contraídas junto aos bancos, com uma pequena parte paga em dinheiro, possibilitando que o produtor siga sua vida em outra atividade?
As microrregiões, com seus administradores locais e com o envolvimento de administradores estaduais, estão aptas a ver e enfrentar estas dificuldades,
Se a Polícia passa por treinamentos pesados, não significa que irá aplicar tais conhecimentos táticos contra nosso povo; se assim fosse, o que falaríamos do Exército, que há muitos anos realiza treinamento semelhante na região de Rio Negro, e não foi por isso que tivemos alguma guerra com outras nações?
Vamos recolher nossas armas, vamos acreditar na Justiça. Vamos retirar a venda dos olhos e enfrentar decididamente esta situação em nosso Estado.
Vamos, novamente, ser um Estado de todos os povos, e dar solução, sim, mas somente àqueles que, não por sua culpa, estão entre nós, paranaenses.
Um Paraná com paz e justiça, principalmente social a todos os paranaenses.
- JOÃO ANTONIO VIEIRA FILHO é advogado, pecuarista e diretor superintendente da Folha de Londrina/Folha do Paraná

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