Justiça se faça
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 2003
Antonio Delfim Netto 
Em entrevista no final do ano passado fiz um comentário elogiando a gestão do Sr. Armínio Fraga à frente do Banco Central, dizendo que ele administrou com competência as várias situações de crise que perturbaram a economia brasileira, algumas delas herdadas dos equívocos produzidos no primeiro mandato de FHC nas políticas fiscal e cambial. Houve quem estranhasse esse comentário pelo fato de ter feito críticas constantes à condução da política econômica em todo o período de governança tucana. O que não se pode deixar de reconhecer é que houve um trabalho competente no Banco Central que, a meu ver, contribuiu para reduzir os efeitos do fracasso do governo em promover o crescimento econômico, a melhoria das condições do emprego ou a redução das desigualdades sociais.
Armínio Fraga assumiu o Banco Central em seguida à desvalorização cambial de janeiro de 1999. Sob seu comando a política monetária e cambial foi profundamente mudada depois que o Brasil revelou-se insolvável. Instituiu-se um sistema de metas inflacionárias e liberou-se a taxa cambial em circunstâncias muito difíceis: 1) elevada relação Dívida Líquida/PIB; 2) relação Dívida Externa Líquida/Exportação muito alta.
Todos sabem que o sistema de metas inflacionárias encontra dificuldades sérias, tanto de diagnóstico como operacional, quando tem de enfrentar choques ''de oferta'' e quando pequenos ajustes da conta de capitais exigem amplas variações na taxa de câmbio real para produzir modificações equivalentes na conta-corrente. No primeiro caso é preciso decidir qual o ''tempo'' adequado de ajuste para evitar fortes flutuações da taxa de juros que perturbam o processo produtivo. No segundo é preciso decidir se a elevação da taxa de câmbio é permanente ou temporária para saber qual a resposta que ela exige, no tempo e magnitude, da taxa de juro. Armínio Fraga soube fazê-lo a despeito das circunstâncias adversas.
A partir de meados de 2001, o Banco Central do Brasil enfrentou um violentíssimo choque de oferta (o famoso ''apagão'') e outros menores (ataque terrorista de setembro, queda de financiamentos devido ao aumento da aversão ao risco etc.). E em 2002 a situação ficou ainda mais complicada porque no processo eleitoral o próprio Governo assustou o Brasil, dizendo que ''se a oposição vencer seremos a próxima Argentina''. Isso produziu um enorme aumento da dívida nominada em dólares, ao mesmo tempo em que aumentou a volatilidade do câmbio.
Diante da quantidade e dimensão dos choques, de fora do controle do Banco Central, não creio que devemos considerar um ''fracasso'' do sistema de metas o IPCA de 12% de 2002 e a alta dispersão das expectativas para 2003. Ao contrário, creio que ficamos todos devendo ao confiável e hábil Fraga, importante contribuição para o aperfeiçoamento e melhoria da qualidade da administração da economia brasileira.
ANTONIO DELFIM NETTO é economista e deputado federal pelo PPB de São Paulo


