A águia ferida levantou vôo. Começou a ''justiça infinita'', a guerra do Século 21 contra inimigos sem face, para os quais a vida nada significa. Não será diferente se o nome dessa guerra foi mudado, pois só Alá faz justiça infinita. Este será o pior de todos os conflitos, o mais difícil, o mais generalizado, o mais sui generis, o mais longo. Dele emergirão de uma forma nunca vista as comunidades do ódio, geradas simultaneamente pelo furor religioso e pelas paixões ideológicas.
Mesmo porque, o bestial e desumano ataque terrorista de 11 de setembro, que unificou o povo norte-americano ao redor do seu presidente, também dividiu o mundo, e o maniqueísmo aflorará com força total. Portanto, o bem e o mal não poderão ser relativizados, pois cada lado, e só existirão dois lados, reivindicará para si a luta do bem contra o mal.
A maioria das pessoas ainda não percebeu o que se passa, e assim ficarão até serem atingidas em cheio pela brutal recessão que já brota da ruínas das torres do World Trade Center, túmulo de um número ainda não sabido das vítimas inocentes do terror. Também é verdade que em muitas manifestações antiamericanas, ''inocentes úteis'' fazem festa pelo baque causado aos Estados Unidos sem saber por que festejam.
Foi esse tipo de manifestação que aconteceu não em terras distantes e dominadas pelo fundamentalismo islâmico, mas aqui mesmo no Brasil. Isso se deu no dia 19, em Brasília, quando em frente à Embaixada dos Estados Unidos um bando de sem-terras queimou a bandeira americana, enquanto cartazes que mostravam a foto de Saddam Hussein, um dos mais fanáticos e sanguinários ditadores que infestam o mundo com sua paranóia, eram empunhados.
Essa atitude quer dizer que esses sem-terra, a maioria já com-terra, fizeram opção preferencial pela pobreza, pelo atraso, pelo ódio, pelo terrorismo, insuflados pela bem-intencionada Pastoral da Terra, pelos mentores do PT e de outros partidos de esquerda, pela garbosa intelligentsia brasileira, por todos aqueles que clamam em coro contra o ''Grande Satã'' ao qual se atribui o mal do mundo.
Com sua vocação totalitária, esses inspiradores do MST são ao mesmo tempo peritos em simulação e em distorção dos fatos. Eles omitem todos os horrores que foram e ainda são perpetrados nos países que professam o sistema que defendem. Com pele de cordeiros, os defensores dos pobres e oprimidos contribuem para manter estes na constante miséria, que é a verdadeira opressão. Por isso se insurgem contra a democracia, a liberdade e a prosperidade dos EUA, fatores que a este país conferiram a grandeza que não foi obtida pelos povos latino-americanos, cuja incapacidade de gerar progresso se origina de uma visão de mundo totalmente diversa das nações do Primeiro Mundo.
Mas a vida é diversidade e as generalizações são perigosas. Entre nós, brasileiros, há um número maior do que se pensa de pessoas dotadas de pensamento próprio, da coragem das convicções, da sensibilidade que permite a emoção e a piedade diante do sofrimento alheio. Isso pode ser exemplificado na carta de uma jovem médica gaúcha, de 28 anos, a mim enviada a propósito do meu último artigo ''O dia em que a história mudou''.
Entre outras coisas, escreveu-me Sandra Lara Vignol Nunes: ''No dia 11 de setembro, saindo de um plantão de 24 horas, após fazer o parto e assistir o nascimento de mais um brasileirinho, celebrei a vida e instantes depois assisti pela televisão ao horror e lamentei milhares de mortes. Chocada, penso diariamente quantos jovens como eu morreram no momento em que deveriam estar começando sua vida.''
Mas Sandra, em meio ao sombrio cenário que se desenha, termina sua carta com o selo da esperança: ''É tempo de mudar. Espero sinceramente que entre perdas e ganhos, entre tantos horrores e mortes, a humanidade passe por esse fogo cruzado como ouro resistente. E que tudo fique melhor. Acredito, sim, que o que é nobre, o que tem valor resistirá a essa prova de fogo.'' Respondi-lhe então: ''Sua afirmação de que o ouro resistirá, remete aos horizontes da esperança. Levantemos essa bandeira que sempre haverá de tremular no mais alto cume de nossa aventura por este planeta.''
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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