Parcela significativa da Justiça Eleitoral está completamente perdida com a enchente de pedidos de resposta nos programas eleitorais feitos por candidatos majoritários. A estratégia consiste, basicamente, em locupletar a Justiça com recursos. Ou seja, usar o atacado para se ganhar no varejo. Em alguns Estados, os juízes costumam atender parcialmente os recursos, examinando menos o mérito e mais a quantidade. Em outros, juízes auxiliares, nomeados pelo TRE para julgar as reclamações e pedidos, mostram-se abertamente comprometidos com certos candidatos, o que tem motivado suspeição e recursos de candidatos discriminados junto aos juízes corregedores.
O processo de conluio entre o Judiciário e o Executivo fica muito patente em época de campanha eleitoral. Os candidatos que se sentem atingidos, quando alegam suspeição, compram uma briga com os juízes e, ao final, poderão acabar ainda mais prejudicados. Nunca se viram argumentos tão ridículos e despropositados, usados por advogados, para amparar o direito de resposta. É para rolar de rir. Alegam que vinhetas gráficas com bichos criam associação com candidatos que defendem.
Por exemplo: o rato é sinônimo de gatuno; o porco chafurda na lama, portanto o porco é corrupto; o urso tem um abraço traidor; o veado tem chifres e isso pode sugerir semelhança com o candidato; o asno também não pode, porque é um animal burro; gato é traiçoeiro e sugere uma associação com traição; hiena, nem pensar porque se refestela com uma comida imprópria. Há juízes propensos a aceitar tal linha de argumentação.
Denúncias e escândalos, mesmo que fundamentados e amplamente divulgados, também estão proibidos de aparecer na programação eleitoral porque juízes, aceitando a linha de argumentação de advogados, vêem neles a sombra da calúnia e da difamação. Na atual campanha eleitoral, pelo menos em Estados pequenos, a censura voltou com intensidade.
Nos Estados maiores, como São Paulo, a guerra entre candidatos é aberta, os candidatos associam seus adversários com situações embaraçosas, amparadas em fatos conhecidos, e a Justiça Eleitoral tem sido mais compreensiva. Não tem compromissos com grupos. Em Estados pequenos, as relações sociais e profissionais se confundem, promovendo interpenetração entre os territórios privado e público.
Moral da história: a Justiça Eleitoral tem, sim, influência sobre o processo político. Ajuda candidatos, sim, porque julga com parcialidade. Basta ler os despachos de alguns processos. E é por isso que o recurso ao Tribunal Superior Eleitoral começa a proliferar. A questão é saber se haverá tempo hábil para se julgar tantos casos. Espera-se para a última semana de campanha um entupimento dos canais judiciários. Na última campanha, a solução dada por alguns tribunais foi salomônica: os advogados das partes foram chamados e entraram num acordo. Avaliaram-se os pedidos de ambas as partes e aceitou-se a regra da reciprocidade. O recurso de uma banda anulava o recurso da outra. Todas salvaram os seus tempos finais de campanha.
A avalanche de recursos mostra que algo está errado na legislação eleitoral. A linguagem dos juízes é desarmônica; os favorecimentos ocorrem; as interpretações são as mais variadas. A provisoriedade é uma marca de nossos códigos judiciários. Para cada eleição, uma lei. Essa é uma das razões pelas quais não se acredita na Justiça. E também um motivo que mantém certos juízes na feia moldura da chacota.

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