Homicídio, latrocínio (roubo seguido de morte), estupro, sequestro. Todo crime, independentemente da natureza, desperta um sentimento de revolta. Mas há delitos que suscitam maior indignação e repercutem mais do que outros. Como a morte de Isabella Nardoni, que aconteceu na Zona Norte de São Paulo em março de 2008. A garota de cinco anos caiu do sexto andar de um prédio. O pai e a madrasta, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, são acusados de cometer o crime. Eles estão presos e serão julgados em março deste ano.
Em Londrina, a morte da jovem Amanda Rossi, de 22 anos, também chocou. Em outubro de 2007 ela foi encontrada morta no campus da universidade onde cursava Educação Física. Três pessoas estão presas acusadas da morte da universitária. Elas deverão ser julgadas até o final de 2010.
A sociedade protesta com mais fervor diante de determinados casos. Mas será que o clamor popular influencia nas decisões judiciais? A juíza Zilda Romero, da Vara Criminal do Fórum Estadual de Londrina, garante que não. ''Nós precisamos ser imparciais e não podemos nos deixar levar por emoções.''
Nesta entrevista, ela fala sobre a morosidade da justiça e desabafa: ''Há um aumento crescente da criminalidade, os Fóruns estão sufocados de processos e a estrutura não aumenta.''
O clamor popular pode, de alguma forma, influenciar nas decisões judiciais?
Nós temos vários crimes que provocam clamor público, mas isso não pode interferir nas decisões, apesar de a Justiça ter que dar uma resposta imediata para a sociedade, a fim de não cair no descrédito. Precisamos ser imparciais e não podemos nos deixar levar por emoções, apesar de sermos seres humanos. Devemos estar isentos de qualquer comoção para não cometermos injustiças. Nossas decisões não podem ser pautadas somente na repercussão do delito, mas sim em todas as provas. A decisão tem que ser bem fundamentada.
Com o passar do tempo vamos adquirindo prática e maturidade. Temos que ter bom senso para nos aproximarmos da justiça. Não podemos cometer atos pelo impulso ou pela paixão.
Então a Justiça é totalmente imparcial?
O juiz precisa manter a imparcialidade. Há o Ministério Público (MP), que é o órgão acusador, e os advogados, que fazem a defesa. O juiz deve manter o equilíbrio dessa balança. Ele tem que analisar o caso concreto, considerar as provas e como foi cometido o delito. No momento da sentença, antes de condenar ou absolver, todas as circunstâncias devem ser consideradas. Quando não há provas, na dúvida, o juiz geralmente absolve.
Quando o clamor popular é muito grande o juiz não se sente pressionado?
O juiz não pode sofrer essa pressão. Nós lidamos, o dia todo, com muitos tipos de delitos. Os casos que têm maior repercussão quando chegam no Fórum já estão mais amenizados. Isso ajuda o juiz a manter imparcialidade e a não ser levado pela paixão popular.
O clamor pode atrapalhar o trabalho do juiz?
Nos casos que temos observado, como o da Amanda Rossi, que teve muita repercussão, eu acredito que o clamor não interferiu. O clamor não atrapalha o andamento, a decisão. Quando há clamor popular ou não as decisões são as mesmas. Existem fatos gravíssimos que não chamam tanta atenção. O juiz tem o mesmo cuidado na hora da decisão.
A possibilidade de inúmeros recursos não é uma forma de evitar o clamor público e a consequente punição?
Nós estamos em uma luta para alterar o Código de Processo Penal e já estamos com a reforma do Código. O que acontece com esses inúmeros recursos é protelar a decisão final. Por isso, há o mito de que os delitos ficam impunes. A sociedade muitas vezes tem razão de ficar indignada com a morosidade. Nós devemos analisar toda a estrutura do poder judiciário. Está havendo um aumento crescente da criminalidade, os Fóruns estão sufocados de processos, a estrutura não aumenta. Em Londrina, há anos, nós estamos com cinco varas criminais. Estamos estruturando o poder judiciário para que não ocorra mais essa morosidade e que as pessoas não se decepcionem com a Justiça.
A indignação da sociedade, muitas vezes, não é estimulada pela mídia?
A repercussão vem da informação. É o papel da imprensa. Mas no caso da Isabela Nardoni, por exemplo, acabou causando uma comoção popular. Se o poder judiciário não dá uma resposta à comunidade corre o risco de cair no descrédito. Mas, mesmo assim, o juiz analisou todas as circunstâncias. Tiveram que preservar os próprios autores dos delitos para não serem linchados. Muitas vezes o juiz decreta uma prisão cautelar para preservar a vida do delinquente.

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