O presidente Juscelino Kubitschek, ou simplesmente JK, foi citado com reverência por todos os seus sucessores. Não faltou quem desejasse reeditá-lo. JK era mineiro, mas sua brasilidade foi perdendo a mineirice e ele ‘‘virou brasileiro’’, como escreveram os historiadores. Era amado pelo povo e tinha uma legião de autênticos torcedores. Isto, obviamente, iria criar também adversários. Ainda hoje paira uma crença de que sua morte num acidente (após o final do mandato) foi um atentado, para que ele não mais voltasse ao poder. Hoje, 3 de outubro de 2005, completam-se 50 anos de sua eleição à Presidência, e aqueles ainda vivos que votaram nele rememoram com veneração essa data e os anos de seu governo. Mas não apenas estes e, também, muitos que não lhe deram o voto mas passaram a admirá-lo depois, assim como tantos jovens ainda não-votantes mas que vivenciaram o seu período governamental. Mais que estadista, ele converteu-se num mito. JK implantou seu conhecido Plano de Metas, que visava dar um salto desenvolvimentista de ‘‘50 anos em 5’’, e tal ele alcançou. Não foi apenas Brasília a sua obra, mas 30 projetos que acrescentaram ao então Brasil agrícola um país industrial. Juscelino multiplicou rodovias pavimentadas, implantou grandes usinas elétricas, trouxe a indústria automobilística, depois a indústria naval, enquanto cresciam também os segmentos do petróleo, do aço, dos minerais não-ferrosos. A história registra que a economia, em seu mandato, teve a média de crescimento de 9,4%, a maior de todos os tempos. Certo é que também a inflação era alta, por conta da constante emissão de papel-moeda, e havia igualmente desequilíbrio fiscal, mas o economista Paulo Nogueira, da Fundação Getúlio Vargas, declara – agora por ocasião da celebração do cinquentenário da eleição de JK – que ‘‘não há desenvolvimento sem desequilíbrios’’. Mas qual era a magia desse governante, afável, risonho, que nas horas vagas tocava violão e que detinha tão vigorosa força criadora e empreendedora? A resposta é que ele tinha ousados projetos de mudança estrutural e os convertia em realidade. Narram os seus contemporâneos que ‘‘seu dinamismo pessoal contagiava os auxiliares e seu partido’’ – o Partido Social Democrático, anverso da ‘‘velha e rancorosa UDN’’, como os adversários denominavam a ultra conservadora União Democrática Nacional. Seu braço forte era o economista Lucas Lopes, elaborador do programa de governo de JK quando governador de Minas e depois seu ministro da Fazenda. Diz a voz popular que ‘‘por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher’’, e JK a teve na figura de Sara Kubitschek. Mais que isso, Juscelino (e este era também um atributo de Getúlio Vargas) entusiasmava as multidões com seus discursos. Era um brilhante tribuno e convertia palavras em resultados. Foi um tempo em que ‘‘todos tinham dinheiro no bolso’’ – e esta era uma verdade e também uma expressão corrente naqueles dias. É que a moeda circulava e ia semeando riquezas. São decorridos 50 anos da epopéia dos ‘‘50 anos em 5’’ e os juscelinistas mais ortodoxos têm viva lembrança desse tempo. O mito representado por Kubitschek é um marco e um indicativo de que é possível reeditar um governo semelhante ao dele.

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