Juros reais, dólar e mercado frágil
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terça-feira, 15 de outubro de 2002
Paulo Afonso Rodrigues 
Quando o Banco Central a partir de setembro de 1999, juntamente com a equipe econômica, observou o mercado totalmente depauperado financeiramente, começou a liberar paulatinamente os compulsórios, até então em patamares de 75%, para o depósito à vista e 20% para o depósito a prazo. As liberações bateram patamares de 45% no à vista e 0% no a prazo. Com o mercado não absorvendo todos estes recursos, os juros foram caindo gradativamente.
É importante frisar que estamos em um mercado de tomadores de crédito acima de um trilhão de reais, onde os três maiores bancos privados emprestam até 25% desta carteira. Em uma economia de capitalismo voraz, com seu custo real competindo passo a passo com o setor produtivo, os juros reais são nocivos à manutenção das empresas.
Os bancos emprestam recursos na maioria das vezes com garantia real, ou, até risco sacado no caso de compra de créditos. Todavia, este mercado tomador não está crescendo porque a inadimplência, no patamar de 5%, é muito maior do que o seu crescimento real. Os bancos sabem disto, pois sentem na carteira de empréstimos as sobras de recursos começando a especular dia a dia o mercado.
Para tanto, estamos hoje com 53% no depósito à vista, 23% no depósito a prazo e 30% na poupança. Os depósitos à vista estão retirando do mercado 2,3 bilhões de reais, os depósitos a prazo 6,4 bilhões de reais e caderneta de poupança 5,5 bilhões de reais, ou seja, 14,2 bilhões de reais estão fora do mercado.
Observando, a grosso modo, esta quantia significativa que se retira do mercado, equivalente a 60% dos recursos aplicados no custeio rural por exemplo, verificamos que o montante não representa absolutamente nada se levarmos em conta a carteira total de empréstimos, a qual está acima de um trilhão de reais.
Daí o título deste artigo: juros reais, dólar e mercado frágil. Aliás, o nosso mercado está tão frágil que 1,4% da carteira passa a ser um ponto regulador da liquidez, porém, não pode ser balizador de custos, e, com certeza, os bancos, na abertura do mercado com esta medida adotada pelo Banco Central, vão querer reajustar os custos financeiros entre 10% e 20% ao ano.
Não seria o momento do Banco Central, ao invés de retirar recursos do mercado, limitar os bancos de atuarem neste mercado cambial? Poderiam os analistas questionar: como ficar fora do mercado cambial, se os bancos captam recursos neste mercado para os empréstimos? Com certeza tudo estaria resolvido se o Banco Central adotar a venda de papéis de curto, médio e longo prazo com taxas internacionais para acomodar o caixa dos bancos.
O mercado sabe que a captação internacional, com o nome que os nossos bancos principais possuem nos últimos seis meses, teve custos entre 8% e 11% ao ano. Agora o mercado sinaliza custos não inferiores a 50% ao ano, utilizando o dólar como indexador em nosso mercado interno.
Os tomadores de recursos devem tomar cuidado e não tentar fazer empréstimos nestes próximos dias, porque mais uma vez, os bancos irão especular ao máximo, jogando a culpa nas medidas recém-adotadas.
Como explicar que 14,2 bilhões de reais podem contaminar o custo de operações em nosso mercado acima de 1 trilhão de reais?
PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro da Afiplan (Assessoria Financeira e Planejamento) em Londrina


