Ao assumir o governo em dezembro de 92, o presidente Itamar Franco encontrou o Brasil em profunda recessão. O PIB diminuía, o desemprego aumentava e empresas fechavam as portas. O setor automobilístico estava prestes a parar. O comportamento abúlico dos dois penúltimos, e desastrado do último presidente, levara a índices baixíssimos o nível de auto-estima do povo. Os juros superavam 30% ao ano, sempre sob a alegação de que se precisava rolar a dívida interna e atrair capitais estrangeiros. Incursiono por esta memória recente da economia brasileira, justamente no momento em que a questão dos juros ganha a cena, para mostrar como a atuação dos homens públicos nos bastidores do governo é vital para os destinos do País. Tudo depende das verdadeiras intenções de cada um.
Na época, a equipe econômica era formada pelos ministros Gustavo Krause (Fazenda), Paulo Haddad (Planejamento), deputado Lázaro Barbosa (Agricultura), Walter Barelli (Trabalho) e por mim na Indústria e Comércio, além de Paulo César Ximenes no Banco Central, Alcir Calliari, no Banco do Brasil, e Danilo de Castro, na Caixa Econômica Federal. O governo, com dificuldades enormes de caixa, arrecadava de 22 a 23% do PIB, evidenciando a necessidade de enxugar qualquer despesa não essencial, de aperfeiçoar a máquina arrecadadora e ao mesmo tempo promover o crescimento econômico para reduzir a pressão social. A fragilidade das contas externas exigia superávit mensal para evitar a bancarrota.
A queixa pelos juros altos era constante, e o presidente exigia sua redução junto aos ministros do Planejamento, da Fazenda e o presidente do BC. Não consigo entender por que aquelas pessoas eram tão radicalmente contra qualquer aceno com vistas a baixar os juros, principalmente o presidente do BC, que na falta de argumentos, ou talvez por isso, exibia uma postura arrogante, com afirmativas catastróficas, sempre com o claro objetivo de inibir qualquer ação.
Numa das reuniões da equipe econômica, já com Paulo Haddad na Fazenda e Yeda Crusius no Planejamento, o presidente Itamar Franco – sempre apoiado pelos presidentes do BB, da CEF e por mim em seus questionamentos sobre a redução dos juros – me perguntou diretamente o que deveria ser feito. Após minha explanação, na qual reafirmei minhas convicções sobre a necessidade vital de avanço das atividades produtivas num País tão carente como o nosso, e reafirmei minha indignação (a mesma do presidente Itamar) com a inexplicável manutenção de juros em patamares estratosféricos, tanto o titular do BC quanto Haddad alegaram que haveria o risco de corrida à poupança em benefício do aumento do consumo, o que por sua vez aumentaria as taxas de inflação.
Os presidentes da Caixa e do BB apoiaram minha tese de que esse risco não era real e por determinação do presidente reduziu-se então os juros, no início de dezembro de 92, para cerca de 23% ao ano. A medida deu novo impulso à economia, com aumento da arrecadação e nenhum problema para a poupança nacional.
Em março daquele ano, Itamar Franco voltou à carga para nova redução dos juros e, em reunião da equipe econômica, solicitou-me que sugerisse qual percentual não acarretaria fuga da poupança ou evasão de divisas. Tanto o presidente da CEF, quanto o do BB e eu achávamos que os juros poderiam ser reduzidos para 16% a 17%. Lembro-me que nesse período, numa armadilha preparada pelo presidente do Banco Central, vi-me envolvido numa reunião nebulosa, na sede da Delegacia do Ministério da Fazenda, no Rio, onde fora a convite do já então ministro da Fazenda, Eliseu Rezende, com toda a diretoria do BC.
Disse ao ministro não estar ali para debater com a diretoria do BC políticas de juros, mas para trocar idéias e apresentar sugestões para a redução das taxas a um patamar que não acarretasse os inconvenientes que eles tanto diziam temer. Qualquer outro posicionamento deles sobre essas questões deveria ser levado diretamente ao presidente. Disse isso e me retirei em seguida do recinto. A falta de argumentos para apresentar a Itamar Franco levou a uma nova redução de juros, que alcançaram então os patamares mais baixos nos últimos 25 anos, ou seja, entre 17% e 18% a.a, no início de abril de 93. Na segunda quinzena daquele mesmo mês, Eliseu saía do governo. Estas taxas vigoraram até Fernando Henrique assumir a Fazenda, quando os juros explodiram novamente.
Vejo agora que após sete anos de estabilização da moeda, que inicialmente não era atrelada ao dólar por imposição do presidente Itamar e sugestão minha, a equipe econômica se vangloria de taxas de 16,5% ao ano. O posterior atrelamento à moeda norte-americana acarretou enorme prejuízo ao Brasil, sufocou a economia, aumentou o desemprego, prejudicou a produção e o resultado está aí, com o povo novamente cabisbaixo. Lamentavelmente, cresce o número de pessoas que se envergonham de ser brasileiros.
O Brasil não precisa, e nunca precisou, de juros altos. Precisa de políticos que, ao passarem ao largo do catastrofismo, ajudem a dar as reais condições para que este País avance rumo ao seu destino. Os juros é que devem estar em baixa, e não a auto-estima de nossa gente. O medo de uma corrida para saques de poupança tem sido o argumento usado para oprimir economicamente nossa gente.
Dois indicadores recentes demonstram claramente os descaminhos de nosso País e corroboram as teses que já defendia como ministro do Governo Itamar. Um amplo levantamento divulgado esta semana pela Fundação Getúlio Vargas revela que no período de 1997 a 99 as 500 maiores empresas do Brasil, no geral, ficaram mais pobres. No ano passado, elas amargaram um prejuízo de R$ 2 bilhões. Isso significa menos empregos e menos investimentos. E, não por acaso, os motivos básicos para um desempenho tão catastrófico estão justamente na desvalorização do real e na alta dos juros. Para completar, nem mesmo a previsão do governo de um superávit de US$ 1,5 bilhão na balança comercial este ano pode ser comemorada. Este valor não torna o País superavitário. Pelo contrário: o Brasil precisaria de US$ 6 bilhões ou mais, justamente para poder bancar o peso dos juros.
Em meio a esta crise generalizada, o presidente Fernando Henrique Cardoso discursa como espectador totalmente alheio aos anseios da população que clama por justiça. Ele deveria ser o primeiro a exigir ampla investigação das razões para a adoção de determinadas políticas praticadas pelo Banco Central, ao contrário de estar se posicionando, por exemplo, em defesa de operações como aquelas que beneficiaram o Banco Marka e Fonte Cindam. Em qualquer país do mundo, por muito menos, os envolvidos, tanto do setor público como do privado, já estariam na cadeia. Mas aqui no Brasil o governo federal prefere premiar tais indivíduos. Quem são os grandes beneficiários dessas políticas, já que o Erário Público perde e todos os setores de produção também perdem?
Mas agora, às vésperas das eleições, vemos o Banco Central reduzir as taxas de juros a níveis inimagináveis pelas condições gerais da economia – ou seja, a balança, como mostramos, continua desequilibrada, o orçamento é deficitário, o abastecimento continua precário e a credibilidade no País voltou aos níveis do final do Governo Collor. Cada dia mais brasileiros fogem para o exterior em busca de oportunidades que aqui não encontram pela má gestão da política econômica.
A única explicação para essa queda das taxas de juros é a intenção deliberada e maquiavélica de se praticar novo estelionato eleitoral contra o povo brasileiro, como já vimos no Plano Cruzado. É a maneira encontrada para carrear simpatias do eleitorado aos candidatos do PSDB, que no Congresso Nacional votaram a favor de todas as propostas desse governo que sufoca o crescimento econômico e empobrece o nosso povo já tão sofrido. Juros baixos, no Brasil de hoje, é ilusão de ótica. Basta esperar o fim das eleições. Quem viver, verá.
- JOSÉ EDUARDO ANDRADE VIEIRA é ex-ministro, ex-senador da República, ex-superintendente do Banco Bamerindus do Brasil e hoje é superintendente da Folha de Londrina/Folha do Paraná

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