Juros capitalizados: quem acha normal?
Juros capitalizados: quem acha normal?
Paulo Afonso Rodrigues
Em todos os artigos veiculados nos meios de comunicação, sempre tratamos dos custos sobre modalidades impostas pelo sistema bancário no mercado nacional com bastante critério. No entanto, quando deparamos com especialistas criticando ou defendendo estas medidas, paramos para analisar dois lados: o daqueles que tomam os recursos e o dos que pagam por estes recursos.
A modernização do setor bancário sempre objetivou a redução de custos. A meta está sendo alcançada através no investimento em sistemas informatizados e na redução do quadro de pessoal. Os altos custos financeiros anteriores ao Plano Real, eram absorvidos pelo consumidor final. Depois do plano, os empresários e outros tomadores de recursos não conseguiram repassar as cobranças tendo em vista a estabilidade da moeda.
Neste período, os bancos continuaram a passar por evoluções tecnológicas e a investirem ao máximo na profissionalização dos seus funcionários, exigindo altas rentabilidades em vendas de produtos e captações ainda maiores de tomadores e emprestadores.
O setor bancário profissionalizou-se com o objetivo de reduzir custos operacionais e financeiros, mesmo a custo de demissões e com o consequente investimento em automação. Ao mesmo tempo, e do outro lado, estava o tomador do crédito pagando juros reais, descapitalizando sua atividade empresarial em prol do regime capitalista. E, os juros cobrados não retornaram àquele que aplicou o recurso no banco.
A capitalização de juros, se fosse controlada em níveis aceitáveis sem a voracidade leonina do sistema, seria bem-vinda. Mas convenhamos: pagar 1% ao mês e cobrar 10% ao mês é muita diferença. Não se pode comparar juros capitalizados de 1% ao mês com juros lineares de 10% ao mês.
Quem sai na defesa de que o cálculo de 10% ao mês é uma matemática ilusória quando capitalizada, não sentiu na carne a sua descapitalização patrimonial, moral, financeira e até em sua dignidade no momento das cobranças dos juros capitalizados. A capitalização dos juros poderia até ser impetrada no mercado desde que com balizadores de custos de captação e de empréstimos.
O governo sinaliza com a baixa dos compulsórios nos depósitos à vista e a prazo. O presidente do Banco Central sai em defesa do setor. E, as modernas máquinas que realizam os cálculos e prestam serviços no setor bancário, continuam a causar admiração ao sistema pela sua modernidade. Mas, do outro lado, onde estão as modernas máquinas do setor produtivo para suportar a modernidade das cobranças e dos custos reais?
Quando enviamos aos senadores Pedro Simon, Leomar Quintanilha e José Fogaça matérias sobre as consequências da capitalização dos juros, o objetivo foi o de alertá-los para a proibição da medida e sim a de colocar um basta nos altos custos operacionais que proíbem qualquer investimento do setor produtivo.
Agora, quando o setor bancário tem a cobertura do Banco Central para capitalizar os juros e o setor não reduz os custos, é como estar em uma briga apanhando sempre. Neste caso, ou paramos a briga ou matamos quem está nos batendo.
Uma das maneiras de mostrar que a sociedade não pode ser mais penalizada é dar um basta ao procedimento imoral de custos cobrados pelos bancos através da coibição do Poder Legislativo para que o setor financeiro, vendo as barbáries que está cometendo no sistema produtivo nacional, possa apresentar um projeto racional, equilibrado e sério.
Um integrante do Poder Judiciário, em recente contato, observou que de nada adianta ao setor bancário tomar bens em troca de dívidas se não possui estrutura para administrar uma fazenda, um supermercado, uma farmácia, ou até mesmo morar nas casas que toma ou dirigir um caminhão.
O mercado ditará o preço destes bens arrestados e, esses mesmos bens voltarão ao setor produtivo. Somente como destaque, se a medida provisória dos juros capitalizados tenta legalizar algo ilegal, onde estariam as penalidades para quem cobrou esta ilegalidade até agora?
E os setores que foram penalizados? Pessoas físicas e jurídicas que perderam tudo? Mais uma vez cumpre-se destacar que, quem acha normal cobranças de juros a 10% ao mês capitalizadas e captações com custos de 1% ao mês, com certeza, não é normal.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina





