O presidente do FED, o banco central dos EUA, Alan Greenspan, recalibrou a taxa básica de juros da economia americana – mantendo-a no mesmo nível de 6,5% ao ano – mas introduziu o ‘‘viés de baixa’’, o que sinaliza uma provável queda na taxa nominal nas próximas reuniões do FED, já a partir do ano que vem. Com esta decisão, o mundo deixou de enxergar Greenspan como o perverso duende Grinch, que tem levado multidões às salas de cinema, e voltou a comparar o provecto dirigente ao venerando Santa Claus, que pelas bandas de cá é vulgarmente conhecido como Papai Noel.
O presente de Greenspan, no entanto, parece ter agradado mais a economia mundial do que a própria economia norte americana. Afinal, o que boa parte da economia americana esperava era uma redução nominal do juro básico, já que a opinião pública de lá já está convencida de que a desaceleração da economia terá efeitos perversos sobre os níveis de emprego e de renda, após 10 anos de acelerado crescimento e inusitada alavancagem de posições financeiras.
Com a expectativa de uma recessão batendo à porta, o (enfim) presidente eleito, na melhor tradição republicana, já anunciou que pretende discutir com o Congresso um megapacote de corte de impostos. Se passar, esta medida, embora possa significar o comprometimento de políticas sociais democratas nas áreas de saúde pública, educação e assistência social, pode amortecer o peso do ônus financeiro gerado pela alta dos juros. E irrigar a economia com recursos que, de outra forma, iriam para os cofres públicos sob a forma de impostos.
Como as ações do banco independem das ações da Secretaria do Tesouro – o Ministério da Fazenda de lá – ou do próprio presidente da República ou do Congresso, o anunciado ou apregoado corte de impostos pode levar o FED a ser mais parcimonioso em sua tendência de diminuir os juros internos, ao avaliar os efeitos da compensação fiscal pretendida pelo governo Bush nos próximos meses.
Seja como for, o presente de Greenspan foi mal recebido nas bolsas americanas. Afinal, queda de juros costuma sinalizar mais atratividade nos mercados de renda variável como as bolsas e os mercados de fundos de ações.
Só que a simples introdução do viés acabou por sinalizar que as perspectivas de ganho dos principais papéis das empresas da velha e da nova economia deve ser revista, já que a própria trajetória mais imediata da economia americana deverá sofrer uma sensível readequação. E esta percepção, somada aos resultados que empresas como a IBM, Cisco, Compaq e outras já começam a apresentar para os investidores locais, pode levar a uma corrida em busca da liquidez que pode vir a significar grandes solavancos na economia americana e mundial.
E isto pode impactar o outro ‘‘presente’’ que a economia mundial recebeu antes mesmo do Natal: a decisão de aquinhoar a economia Argentina com uma formidável oferta de recursos de quase US$ 40 bilhões, como todas as partes envolvidas reconheceram, uma verdadeira ‘‘blindagem financeira’’ capaz de afastar por, pelo menos dois anos, o risco de uma moratória internacional da economia argentina. E que poderia desencadear outra crise de confiança na economia mundial, nas mesmas proporções da crise da Ásia ou da Rússia, de triste e recente memória.
Ou seja, talvez o único aspecto positivo da globalização para países emergentes é que ao escancarar vertiginosamente suas economias, vender indiscriminadamente seus ativos e endividar definitivamente suas populações, o risco de qualquer colapso com que se defrontem passa a ser também ‘‘globalizado’’.
Em outras palavras, um problema de ordem supranacional, afetando tanto ou mais quem vende para seus mercados, quem comprou os ativos de suas empresas e bancos, quem lhes emprestou dinheiro ou quem lhes aportou capital de risco, do que afeta os agentes locais de sua própria economia.
Afinal, se fosse para tomar uma decisão sob a ótica eminentemente técnica, certamente os bancos privados estrangeiros, o governo espanhol e o próprio FMI – a quem coube, afinal, bancar o pacote argentino – prefeririam fazer o ‘‘clean-up’’ ou o ‘‘stop-loss’’ de suas posições de crédito já existentes naquele país a aumentar ainda mais o risco de perderem tudo o que já aportaram em uma economia que terá grandes dificuldades em se recuperar e gerar divisas na velocidade e na magnitude exigível pelo montante do compromisso que acaba de firmar com a comunidade financeira internacional.
A questão agora é saber se estes ‘‘dois presentes’’ fazem sentido ‘‘juntos’’. Ou seja, se Papai Noel trouxe um par de sapatos com a numeração adequada ou se trouxe dois pés direitos (ou esquerdos) ou um pé de sapato e um pé de tênis. Isto porque com o aprofundamento da renda interna americana, mesmo que os países emergentes estejam ‘‘blindados’’ para resistir a períodos de comércio e oferta de capitais mundiais em restrição, o efeito global de uma diminuição do poder de compra americano sobre o desempenho da economia mundial é sempre desastroso.
Principalmente porque inibe a capacidade dessas economias em gerar divisas pelo lado das exportações aos mercados compradores dos EUA e da Europa. E isto pode ser fatal para quem tem câmbio fixo com o dólar e estará ‘‘blindado’’ para receber mais recursos externos que não seja o que já receberá para honrar a dívida pública externa junto aos mesmos países compradores de seus produtos. Mas esta é uma discussão para este milênio...
- SAULO KRICHANÃ RODRIGUES é consultor de empresas em São Paulo
e-mail: [email protected]

mockup