Juros altos têm seus defensores
Quem pensa que a opção preferencial pela política econômica ortodoxa incomoda setores do governo está enganado. Há homens fortes no Planalto que referendam a linha de Palocci e Henrique Meirelles - aquele que está na mira da Justiça.
Há, portanto, quem defenda a política de juros altos - que inibe o crescimento econômico, impede a geração de empregos, aumenta as desigualdades e só beneficia os banqueiros, como mostram os balanços desses conglomerados financeiros no primeiro trimestre. O ministro da Casa Civil, José Dirceu, é um deles. Dirceu fez, ontem, firme defesa do atual modelo econômico (continuidade do legado sinistro do sisudo Pedro Malan, no governo FHC) ao contestar as críticas feitas pelo cientista político, o também petista Juarez Guimarães.
Disse o cientista: As conquistas mais importantes do governo têm o seu próprio contraditório: parecem neutralizadas ou ameaçadas pela ultraconservadora política do Ministério da Fazenda e do Banco Central.
Dirceu, por sua vez, afirma que entre o discurso e a prática existem limitações que são reais. E que é cedo demais para fazer uma avaliação de que há uma rendição do PT, ou que a política econômica está errada. Defendeu a política do Banco Central dizendo que o que se faz é o possível dentro do cenário herdado pelo governo Lula.
Mas a posição de Dirceu é efêmera. Ele deve cair na real tão logo ocorram os primeiros sinais de ajuste do câmbio ou um novo reaperto dos juros - as duas variáveis não são excludentes - para evitar a fuga do capital especulativo, que ajuda a custear a dívida interna.
Os sinais de inflação já se manifestam e isso mexe com a performance do governo perante o eleitorado. A menos que o governo decida mexer nas fontes geradoras de inflação, uma delas a expansão dos gastos públicos. O governo é péssimo administrador. As despesas são incontroláveis. O desempenho da economia não acompanha a sangria da máquina administrativa. Em 2003 os gastos totais do Tesouro representaram mais de 16,5% do PIB mas no ano passado ficaram em 17%. O governo disse que economizou. O governo também alega que está ampliando os investimentos. De fato, passou de 0,4% para 0,5% do PIB. Números não combinam com discursos: ou negam ou simplesmente não confirmam.
Mas os principais indicadores estão mesmo no campo social: ainda que o paternalismo dos programas sociais (que apesar de suas deformidades não deixam de ajudar parte da população carente) disfarçam um pouco, a realidade é sombria; o futuro também. Aí o governo vai ver que o controle da inflação usando instrumentos de política monetária, é uma heresia técnica, que inflação se controla com produção. O governo não deixa o setor produtivo caminhar.





