Como interpretar a decisão do Banco Central de elevar a taxa de juros? Ela se justifica? Entendo que o Banco Central tinha pelos menos três grandes razões para fazer esse movimento, tão antipático quanto necessário: de um lado, a causa real, que é a dimensão estratosférica da dívida pública, tornando cada vez mais difícil a sua rolagem sem respeitar as exigências do mercado por uma taxa maior; do outro, a necessidade de manter a taxa interna atrativa para os credores internacionais; por fim, a necessidade de sinalizar positivamente ao mercado sobre o grau de conservadorismo na condução da política monetária. O Banco Central jurou por todos os juros que vai fazer a coisa certa.
A única maneira efetiva de reduzir a taxa de juros e minorar a inflação é pela redução do gasto estatal, viabilizando superávits primários maiores, sinalizando efetivamente para os agentes econômicos a disposição para resgatar parte da dívida pública. Isso passa ao largo do poder da autoridade monetária, dependendo diretamente da Presidência da República e do Poder Legislativo (e do Judiciário, diga-se), algo muito difícil de ser feito. Fora essa hipótese, a espada de Dâmocles pairará impiedosamente sobre a cabeça dos governantes e dos governados. Qualquer coisa fora disso, inclusive a hipótese de elevação dos impostos, só tende a agravar a situação, abortando qualquer tentativa de crescimento econômico e de controle inflacionário.
Do ponto de vista político, o paradoxal é que reside no interior das próprias forças governantes a oposição mais sistemática aos condutores da política econômica. A esquerda romântica não pode se conformar com mais do mesmo. O fato de estarem no governo poderia ser instrutivo para saberem os limites do possível, mas eles insistem em não aprender com a experiência.
O aprendizado aqui significaria jogar no lixo toda a mixórdia de discursos que têm feito, a partir da subliteratura que alimenta a causa marxista. Como seria possível a um crente anular o que considera uma revelação? Pensar diferente dos cânones marxistas equivale a ser não marxista e mesmo antimarxista. Seria o atestado de uma vida intelectual adulta e consciente, migrando das confusas convicções juvenis do esquerdismo para um sentido superior da realidade.
Crescer, todavia, é um processo lento e doloroso e não é de se esperar que isso aconteça de forma abrupta para um conjunto muito grande de pessoas. A coerência não é apenas emburrecedora: com o passar dos anos ela carrega o germe do mito do puer aeternus, a eterna criança que se recusa a virar adulto.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo

mockup