Juntando cacos da crise - Gaudêncio Torquato
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Gaudêncio Torquato 
Ao sair atirando do Banco Central, Gustavo Franco usou uma velha tática, muito eficiente para despistar a verdade: a descoberta de bodes expiatórios e objetos de ódio. A esquerda, a direita, a Fiesp foram alguns dos alvos atingidos. Gustavo Franco, aliás, é um exemplar fogoso da galeria de confusão em que está metido o País. Mais de R$ 40 bilhões saíram pelo ralo, nos últimos meses, mas Franco tem coragem de dizer: Eu estava certo. O governo promete baixar a taxa de juros e Armínio Fraga, ao assumir, eleva-a ao patamar de 45%. Um ministro do governo, Clóvis Carvalho, defende a privatização da Petrobrás e do Banco do Brasil, mas outro, Pedro Malan, desconsidera tal possibilidade. Nadando em águas ambíguas, como tucano, Fernando Henrique admite que, eventualmente isso pode ocorrer, caso o Brasil achar que é bom.
O ministério é uma colcha de retalhos. Há ministérios, como o de Comunicações e Minas e Energia, que perderam quase por completo as funções, a partir da criação das agências coordenadoras e implementadoras dos programas setoriais. Secretarias foram criadas para abrigar políticos descartados nas eleições. Os cargos de segundo e terceiros escalões estão sendo disputados a ferro e fogo pelos partidos que formam a base governista. Mas as nomeações só sairão após a aprovação da CPMF. O Imposto Verde, com origem no PMDB do ministro Eliseu Padilha, despertou a ambição do PFL do ministro do Meio Ambiente, Zequinha Sarney, que deseja abocanhar uma parcela dos recursos. Disputada acirrada, imposto adiado para o próximo ano.
Na falta de um grande gancho capaz de despertar a letargia dos contingentes desmotivados e atrair a atenção das classes médias arredias e em processo de afastamento do poder central, o presidente elege a agricultura como a âncora verde de seu governo. Comete, assim, um eufemismo capaz de fazer rir produtores agrícolas, que há muito se queixam do abandono a que têm sido relegados.
O FMI, desgastado e sem credibilidade, estabelece novas metas de desempenho, traçando rumos, definindo índices de inflação e monitorando as políticas. A recessão irá afundar na casa dos 4%, com juros acumulados de quase 29% e superavit primário de 3,1% do PIB. A promessa é a do dólar parar na margem de R$ 1,70 (será?). A inflação exibe os contornos futuros, dançando entre as margens dos 15 aos 18%. Os sindicatos trabalhistas começam a estrilar e a defender gatilhos automáticos, a partir do momento em que alcançarmos a marca do pênalti, ou seja, os 10%.
Os serviços públicos caem de qualidade. Os telefones e a energia elétrica em São Paulo entram em caos, mas as companhias telefônicas ganham U$ 1,7 bilhão com a desvalorização do real. A violência assume proporções cada vez mais alarmantes, com assaltos, sequestros e mortes brutais. O Poder Judiciário começa a enfrentar o maior ataque de sua vida institucional. O desemprego estoura o balão das filas. O dinheiro fica curto. Os Tribunais do Trabalho e os Tribunais Militares, pela palavra forte do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, são escorchados e têm a existência questionada. No Congresso, respira-se um ar cheio de interrogações, pontilhadas de uma única certeza: o segundo mandato de Fernando Henrique passará um bom tempo no purgatório. A meta de alívio, a partir do segundo semestre, está sendo revista, com prazos mais elásticos para se descobrir horizontes mais claros.
Sob essa monumental Torre de Babel, acumulam-se as grandes carências, ausências e os conflitos: a falta de um grande projeto nacional de desenvolvimento; a ausência de grandes líderes; o arrefecimento e a fragmentação dos partidos políticos; o crescimento da desesperança; a expansão das ondas de medo; a fuga da auto-estima; a tibieza do presidente Fernando Henrique; as querelas inter-partidárias; a incomunicação governamental; a expansão do misticismo; a dor apertada nos estômagos das massas marginalizadas; e a intensidade do eco salve-se quem puder.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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