Juízes sem rosto, especialistas sem cérebro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de abril de 2003
Cláudio Marques da Silva 
É fantástica a criatividade e competência do Ministro da Justiça e dos notáveis que elaboraram o plano de segurança emergencial para o Rio de Janeiro. É a medida pós-susto, pois foram anunciadas logo após os ataques perpetrados pelos traficantes, bandidos estes elogiadíssimos pela imprensa devido à sua descomunal capacidade de planejamento e coordenação, como se encher um carro de delinquentes armados e sair atirando a esmo em moradores indefesos exigisse alguma coisa mais além de bestialidade e covardia.
Ao ouvir o tal plano confesso que fiquei perplexo com tanta inteligência em tão poucas palavras. Acredito até que os idealizadores poderão ser indicados para o Prêmio Nobel da sabedoria. Primeiro, descobriram que os mesmos agentes que efetuam a prisão não podem ser responsáveis pela guarda destes presos, havendo necessidade de funcionários contratados especificamente para esta tarefa. Segundo, num lampejo fulminante de sabedoria, constataram que sem efetivo não há meios de a polícia realizar com sucesso a sua missão, anunciando assim a contratação de mais agentes.
Creio que a missão mais difícil estará a cargo do Exército que no ''novo'' plano auxiliará com os serviços de ''inteligência'', fato que poderá acarretar um desequilíbrio na balança comercial brasileira, porque pela análise deste podemos concluir, com convicção, que ''inteligência'' será produto de importação.
Entretanto, o que mais me intriga é que os dois primeiros pontos desta ''novidade'' ainda não foram percebidos por alguns governos estaduais. Dias depois, com a execução fria e covarde de dois magistrados, mais um ataque súbito de inteligência acometeu o nosso ministro ao afirmar que criará a figura do ''juiz sem-rosto''. Até poucos anos atrás os bandidos se escondiam das autoridades, porém de acordo com a nova política de segurança as autoridades passarão a se esconder dos bandidos, o que é ''brilhante''.
Devido à irresponsabilidade de nossos govemantes passaremos a conviver com ''juízes sem-rosto'', o que não causa nenhuma surpresa, tendo em vista que a polícia, devido à falta de efetivo, já atua há tempos com o ''policial sem-corpo''. Já que no anúncio do Programa ''Fome Zero'' aparece um prato ''sem-comida'', concluo que em nosso País o que não falta são ''especialistas sem-cérebro''.
CLÁUDIO MARQUES DA SILVA é delegado da 27 Delegacia de Polícia Regional de Paranacity


