Jovens paranaenses
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sexta-feira, 25 de abril de 2003
Olavo de Carvalho 
Num livro já antigo, Wilson Martins escreveu que o Paraná era ''um Brasil diferente''. Tenho comprovado isso desde que comecei a dar aulas neste Estado. Os outros brasileiros de hoje são em geral tagarelas e preguiçosos: não estudam nada e opinam sobre tudo. Os paranaenses são notavelmente mais humildes e interessados em aprender.
A importância da humildade no aprendizado já era enfatizada, na Idade Média, por Hugo de São Vítor, um dos maiores educadores de todos os tempos. Humildade significa, no fundo, apenas senso do real. O culto da juventude obscureceu essa verdade ao ponto de que todo mundo já acha natural esperar que, aos 15 ou 18 anos, um sujeito tenha opiniões formadas sobre todas as coisas e que, miraculosamente, elas estejam mais certas que as de seus pais. O resultado é desastroso. O culto da juventude traz, como um de seus componentes essenciais, o desprezo pelo conhecimento: se ao sair da adolescência o sujeito já traz na cabeça todas as idéias certas, para quê continuar estudando?
No Brasil, esse preconceito arraigou-se tão fundo, que já parece impossível extirpá-lo. Milhões de jovens, incapacitados para perceber as mais óbvias realidades, se crêem investidos do direito divino de julgar todas as coisas, homens e fatos. Além do conhecimento, falta-lhes às vezes até aquele mínimo de integração da consciência, sem o qual um sujeito não pode sequer argumentar de maneira razoável. Sua pretensão arrogante contrasta tão deploravelmente com a sua falta de recursos intelectuais, que se torna impossível ensinar-lhes o que quer que seja.
Raríssimos estudantes, hoje em dia, sabem distinguir princípios gerais de tomadas de posição sobre pontos particulares. Adotam uma opinião sobre isto ou aquilo, sobre o homossexualismo, sobre a guerra no Iraque, sobre as clonagens, e a tornam imediatamente um princípio universal, deduzindo dela conclusões adversas aos próprios princípios lógicos que legitimam a dedução. É assim que uma pessoa neurologicamente normal acaba tendo o desempenho cerebral de um mongolóide.
Outro dia encontrei na Internet um site de jovens homossexuais que demonizavam os EUA, terra de promissão do movimento gay, e defendiam entusiasticamente as ditaduras islâmicas, nas quais o homossexualismo é crime punido com a morte. Na antiga retórica greco-latina, isso chamava-se ''argumento suicida'', como no caso de um judeu que fizesse propaganda nazista.
O argumento suicida era tão raro que os manuais de retórica mal o citavam. Hoje em dia, tornou-se a coisa mais comum do mundo e, nas falas de estudantes brasileiros, quase um paradigma. Quanto mais lisonjeada por pais e educadores, mais a juventude se torna estúpida e incapaz, anunciando uma maturidade de ressentidos, fracassados e invejosos.
Tenho me defrontado com esses tipos no Brasil inteiro, mas garanto: entre os estudantes paranaenses o número deles é bem menor. Não sei como explicar esse fenômeno. Não conheço a história cultural do Estado ao ponto de arriscar alguma hipótese. Apenas assinalo o fato e reconheço ver nele um raro sinal de que, para a cultura deste país, nem tudo está perdido.
OLAVO DE CARVALHO é professor e filósofo em Curitiba


