A aventura dekassegui tem servido de prato cheio para as pesquisas no âmbito da psiquiatria. Com a desaceleração da economia japonesa, a massa dekassegui se vê no dilema de disputar o mercado de trabalho com os cerca de 2 milhões de desempregados nativos. Ainda assim, segundo o psiquiatra paulistano Décio Nokagawa, muitos brasileiros optam por ficar lá, mesmo em situação de abandono total. Ele alerta para uma crise gerada pela falta de uma política social e trabalhista tanto por parte do Brasil quanto do Japão, com relação aos dekasseguis. Cita como exemplo a delinquência juvenil.
Nokagawa adverte que são mais de 40 mil o número de jovens brasileiros menores de 16 anos residindo no Japão, sendo que um terço não frequenta nem a escola, quanto mais o trabalho. Vivem nas ruas, sujeitos ao consumo de drogas e cometem pequenos delitos. ''O próprio Ministério da Justiça do Japão informou no ano passado o registro de 400 casos de jovens brasileiros envolvidos em questões policiais'', ressalta.
Muitas vezes, adianta Nokagawa, a reação paranóica gerada pela noção de fracasso acaba levando o dekassegui ao desespero, beirando ao suicídio. ''O drama é tão intenso que, em alguns casos, estes trabalhadores escondem a sua experiência no Japão quando retornam ao Brasil para procurar emprego'', afirma Nokagawa.
Para outro psiquiatra com 20 anos de experiência no assunto, Percy Galimbertti, uma das vantagens do movimento dekassegui é o fato de os trabalhadores nikkeis poderem atuar no Japão de forma legal, reconhecidos por uma legislação local. ''O problema é que falta uma política que lhes garanta o assentamento no Japão e não apenas o trabalho temporário, já que muitos estão se adaptando lá, inclusive constituindo famílias'', explica.
Autor de um livro que narra os problemas de adptação vividos por dekasseguis ao retornarem para o país, Galimbertti lista uma série de patologias, como quadros graves de depressão, angústia e desestruturação familiar. ''Estas pessoas não estão indo ao Japão apenas para fazer dinheiro. Há o aspecto do resgate cultural, decorrente de valores tradicionais passados por seus pais ou avós'', explica o psiquiatra, acrescetando que ao chegarem no Japão os dekasseguis enfrentam a barreira da aceitação integral à sociedade japonesa, que os vêem como estrangeiros. ''Eles vivem uma segregação ocupacional. São trabalhadores recrutados para tarefas consideradas pesadas, sujas e perigosas.''

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