José ou as desventuras de um Quixote
José ou as
desventuras
de um Quixote
Paulo Cezar Basílio
O artigo de hoje saiu-me de graça por ser resultado da minha última experiência de leitura. Provém de uma inspiração já concretizada: o livro Todos os nomes, do escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Confesso que ainda estou sob o impacto dessa fantástica produção literária à minha frente. Não pelo enredo em si, mas pelos questionamentos e pelos desafios retirados das situações mais elementares da vida de todo ser humano. Quem não se debate diante dos muitos mistérios da existência? Não geraria um conforto maior à alma humana tornar conhecido aquilo que está imerso nas sombras do impossível?
A história parecia-me sem muita motivação. De qualquer forma, prossegui na jornada. Já nas primeiras páginas tive a certeza de que precisava curvar-me ao estilo denso da narrativa, dispondo de dedicação completa.
Quando atravessava suas páginas repletas de reflexões existencialistas, percebia-me por entre uma floresta sombria. A saída passava pelas trilhas, às vezes quase imperceptíveis, deixadas pelo autor, num percurso serpenteado de porquês da vida e da morte, do viver e ser conhecido e do viver no anonimato angústia da maioria absoluta dos homens, passar pelo mundo sem ser percebido, como uma simples folha que perde sua roupagem com a chegada do outono e cai na borda do caminho pronta para ser amassada.
José, o protagonista, homem simples, vivência ordinária, escriturário do registro civil, vive cercado por nomes dos vivos e dos mortos. Além do repetitivo trabalho, coleciona dados sobre a vida de gente famosa. Por acaso, ao buscar mais informações sobre uma celebridade, traz consigo o verbete (registro) de uma mulher desconhecida, uma pessoa comum.
A partir desse encontro fortuito, o Sr. José empenha-se de todas as maneiras (violando arquivos inclusive) para descobrir como vivia e quem era essa senhora. A tarefa acabou se tornando bastante complexa já que as pessoas desconhecidas constroem suas histórias na penumbra da sociedade.
Todavia, é preciso considerar que os métodos de investigação refletem as atitudes picarescas de um Sr. Cinquentenário. Depois de tanto esforço, eis a informação fatal: a mulher morrera há poucos dias; cometera suicídio por motivos para sempre desconhecidos...
As desventuras desse Dom Quixote pós-moderno aproximam-se de todos nós. Em cada esquina há um José numa profunda busca para descobrir identidades escondidas. Ao encontrá-las, cada um de nós, Josés em essência, encontraria a si mesmo.
A vida deixaria de se resumir no mistério maior e aquela eterna pergunta E agora José? do poema de Drummond, teria suas respostas, deixando de ser um sino a atormentar pessoas conhecidas ou desconhecidas.
- PAULO CEZAR BASÍLIO é professor em Pinhão





