José Negreiros
A voz do PT
Terminou, felizmente, a fase de bonzinho que o PT tentou protagonizar nas últimas duas semanas. Lula e seus ‘‘luas pretas’’ faziam greve de silêncio como resposta ao tiroteio que os alvejava desde que o candidato do partido começou a subir nas pesquisas eleitorais. Segundo analistas e adversários, a bolsa caiu porque os investidores foram afugentados com a notícia do empate entre Lula e FHC na preferência popular e a hipótese de vitória do PT seria o caos.
Na cabeça dos líderes do PT, a única maneira de brecar esse terrorismo seria dar um jeito de Lula ficar o mais parecido possível com Fernando Henrique, se possível adotando um programa de governo tucano. Segundo a teoria, bastaria cultivar bico longo, arrulhar daquele jeito confuso e usar penas coloridas para que ninguém notasse que ali estava a estrela vermelha.
Pensando assim, Lula levou um trompaço do senador Antônio Carlos Magalhães, para quem se o PT chegar à Presidência o mundo acaba, e ficou calado. ‘‘Antônio Carlos quer repercussão e isso eu não vou dar. Eu aceito a disputa política, mas não vou responder a todas as bobagens que dizem’’, explicou Lula, orgulhoso de sua estratégia.
Outro que resolveu recolher os flaps foi o ex-deputado Aloizio Mercadante, principal cérebro econômico do PT. Durante encontro de economistas da região Centro-Oeste na semana passada, Mercadante disse que o Brasil não tem condições de baixar rapidamente a taxa de juros e que é impossível desvalorizar o real em plena crise asiática. ‘‘Não podemos deixar qualquer dúvida de que não haverá medida brusca no câmbio’’, afirmou.
Se não usasse bigode poderia ser confundido com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, que ao contrário do que pregava o PT na semana passada quer, sim, o debate entre as propostas econômicas dos dois candidatos. As declarações de Lula e Mercadante eram incompreensíveis para os eleitores petistas. Depois de esperar oito anos por uma chance de competir com possibilidade vitória, eles assistem seu candidato crescer nas pesquisas e empatar com o principal opositor, antes considerado imbatível.
Mas em vez de aproveitar a força do vácuo (a exemplo do que ocorre com dois carros muitos próximos na Fórmula-1) para engrenar uma ultrapassagem, o que faz o PT? Diz que não tem proposta alternativa, que fará as coisas igualzinho Fernando Henrique vem fazendo.
Ora, se não é oposição, não se sabe o que faz o Partido dos Trabalhadores. Para tocar a política econômica atual, que atrela estabilidade à disponibilidade de capitais externos, já existe Fernando Henrique. Lula deve a quem vota nele pelo menos o enunciado de um projeto alternativo. Foi o que concluíram esta semana José Dirceu, presidente do partido, e o deputado José Genoino, um dos principais interlocutores do PT no Congresso Nacional.
‘‘Se fosse para ser igual ao FHC seria melhor não se candidatar. Lula não é FHC melhorado, nem FHC social, nem FHC bonzinho. Lula é diferente’’, disse Genoino. Foi um avanço. Agora só falta acertar o que anda dizendo gente importante, como o sociólogo Marco Aurélio Garcia, coordenador da campanha petista.
Segundo ele, se Lula ganhar vai interromper as privatizações. Não tem sentido. O que tem é traçar um programa que ataque o desemprego e invista na área social, temas para os quais o ministro Sérgio Motta pedia prioridade. Diante deles, FHC e equipe econômica têm feito vista grossa.
JOSÉ NEGREIROS é jornalista em Brasília

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