José Negreiro
José Negreiro
Curto prazo
Não foram só os números das recentes pesquisas eleitorais que contribuíram para deixar o mercado nervoso e transmitiram aos políticos que apóiam o governo o receio de que a reeleição esteja comprometida. Atrás dos números negativos para a popularidade de Fernando Henrique Cardoso vieram declarações de assessores econômicos de Lula especulando sobre o que aconteceria com a taxa de câmbio caso ele fosse eleito presidente.
Segundo o sociólogo Marco Aurélio Garcia, coordenador da campanha do PT, e o economista Guido Mantega, assessor informal do candidato, uma das idéias cogitadas por ele é desvalorizar a moeda mais do que vem sendo feito atualmente.
Os economistas que estão no poder são contra a maxidesvalorização do real por razões práticas. Acreditam que, se fizerem isso, haveria risco de os empresários transferirem para os preços o percentual da mexida no câmbio. O aumento de preços estimularia os sindicatos a pedirem reajuste de salário, restabelecendo dessa forma a indexação e, em consequência, trazendo de olta a inflação alta.
O governo prefere a fórmula em vigor de alteração gradual do câmbio entre 3% e 4% ao ano acima da taxa de inflação, o que se tem revelado eficiente, exceto como estímulo vigoroso às exportações. Se não resta dúvida de que a reação em cadeia à mudança na política econômica será prejudicial à estabilidade e, portanto, à renda do trabalhador, não se compreende como o PT pode advogar a desvalorização cambial acelerada.
Diante da crise asiática, analistas da conjuntura política e econômica são unânimes em observar que não está no câmbio o erro do governo e sim na elevada conta do déficit público, estimado por alguns em 7% do PIB este no. Investidores estrangeiros e domésticos vêem nesse percentual cifra inadmissível, que ainda por cima tem a desvantagem de pôr o Brasil na mesma escala de comparação com a Rússia, um dos pivôs da atual desorganização dos mercados emergentes.
Outros pontos do programa mínimo do PT que se tornaram públicos também implicam forte contraste com o modelo atual, como a criação de barreiras ao capital externo. Em recente entrevista à Gazeta Mercantil, por mais de uma vez o professor Guido Mantega reafirmou a conveniência de o país se desfazer do atual nível de reservas internacionais estimado em US$ 74 bilhões.
Quando os economistas começam a trafegar pela contramão, em geral querem chamar a atenção. Em véspera de eleição, caso pertençam à corrente que as pesquisas apontam como alternativa viável de poder, o que dizem contribui para perturbar a conjuntura econômica, já estressada pela instabilidade internacional. Além disso, hoje em dia, quando um país admite que pode desvalorizar a moeda é porque sua situação interna tornou-se insustentável, a exemplo do que aconteceu recentemente no sudeste asiático.
O primeiro impacto das pesquisas desfavoráveis a Fernando Henrique foi a queda da bolsa. Para contê-la, o governo teve que agir em várias frentes. Na última delas aceitou um prazo muito curto para os títulos que utiliza ao captar dinheiro com o qual financia sua dívida. Em menos de uma semana, o mercado antecipou um cenário ruim que talvez só esperasse para o fim do mês. Em um mês terá antecipado a eleição prevista para daqui a quatro?
- JOSÉ NEGREIRO é jornalista em Brasília





