José Antonio Pedriali
José Antonio Pedriali
FHC e
o Everest
eleitoral
O presidente Fernando Henrique não é mais aquele. Não é mais o professor de todos nós, com algum ou nenhum grau de instrução, que se dirigia aos discípulos da Nação com frases cifradas e palavras cunhadas ao longo de uma brilhante carreira acadêmica. Fernando Henrique trocou a cátedra pelo palanque e agora o vemos em ação, em todos os quadrantes do País, mostrando o que o seu governo fez ou pretende fazer.
Estamos em período eleitoral, antecipado pelas circunstâncias da vida, pois só esperávamos o início do embate depois da Copa do Mundo, e eleição é isso aí: não permite milongas ou chorumelas nem longas digressões professorais e muito menos a impassividade diante da investida do adversário. Nosso presidente-professor-sociólogo, futuro ocupante de alguma cadeira da Academia Brasileira de Letras, deixou de lado a aura de sábio para converter-se, por enquanto, em mortal.
Aos índices negativos de popularidade, crescentes e ameaçadores, Fernando Henrique reage, acossado pela dupla Lula-Brizola e por seus ecléticos e perplexos - porém astutos - aliados de plantão. O Vox Populi do final da semana passada já registrou um ligeiro movimento a favor do presidente, e seus aliados avisam: é só o comecinho de uma escalada em cujo topo não se permitem dois alpinistas.
Fernando Henrique acaba de subir dois lances do Everest eleitoral. Anunciou ontem um ambicioso programa de habitação, para facilitar a compra da casa própria à classe média e, ao mesmo tempo, diminuir o impacto do desemprego no setor da construção civil, hoje severamente debilitado pela política de juros altos praticada pela equipe econômica. E, anteontem, em entrevista à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, confirmou que os servidores públicos civis terão, enfim, o reajuste que lhes foi negado desde o início do Plano Real.
O reajuste é mais do que justo, pois se limita ao repasse da inflação aos salários, mas o impacto dessa medida nas contas públicas não pode ser desprezado. Só este ano o governo terá de desembolsar mais de R$ 500 milhões para cobrir a folha de pagamento e, ao final dos 36 meses necessários para a amortização do reajuste, a conta terá ultrapassado R$ 8 bilhões.
Apaziguado o funcionalismo e acariciada a classe média, Fernando Henrique começa a dissolver o iceberg da rejeição que ameaçava seus planos reeleitorais junto a esses dois segmentos do eleitorado, que se complementam e têm um enorme potencial de votos. Justamente a parcela do eleitorado que vem pagando parte da conta do Real e, por isso, se mostra mais propensa a recusar um segundo mandato a Fernando Henrique.
Neste momento da escalada, Fernando Henrique se mostra mais célere, pois é quem dispõe de mais recursos e está melhor equipado para a aventura. A dupla Lula-Brizola, que mantinha a iniciativa dos movimentos e estava se aproximando demais da retaguarda do adversário, afinou o discurso para evitar que o prezado público percebesse o óbvio, isto é, que os dois fizeram apenas uma aliança estratégica sem consistência e muito menos coerência ideológica e programática. O discurso de ambos, decidiu-se no início da semana em São Paulo, será monocórdico. O discurso é importante, pois ele comove os corações e impulsiona as mentes, mas a questão crucial é saber quem terá fôlego suficiente para chegar ao cume.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor de Política da Folha





