José Antonio Pedriali
José Antonio Pedriali
O continente
submerso
Agora é a Guiné-Bissau, dias atrás era a Etiópia/Eritréia, há algumas semanas Sudão/Etiópia, há alguns meses Burundi, há alguns anos Ruanda. E a África volta a ser lembrada pelo que tem de pior, as guerras fratricidas nas quais se lançam tribos rivais, que constituem, na realidade, as verdadeiras e autênticas nações daquele continente.
A guerra civil na Guiné-Bissau tem os elementos mais comezinhos de uma disputa ensandecida pelo poder que, na maioria dos países daquele continente, ainda é definida pelas armas. Um general qualquer - com sobrenome pomposo de Mané - se indispõe com o presidente, junta um bando de soldados desdentados e mercenários descalços e se lança furiosamente contra o mandatário - e salve-se quem puder. Nem crianças são poupadas. Civis são bombardeados enquanto procuram refúgio em salvadores navios mercantes. Embaixadas, como a americana e a francesa, viram zona de tiro.
A África é o continente, junto com algumas regiões da Ásia e do Oriente Médio (o Iêmen, por exemplo), onde é inconcebível pensar em globalização, esta palavra mágica da moda sobre a qual repousam as relações comerciais e políticas do mundo moderno e as esperanças de uma humanidade redimida pelo fim das barreiras de toda ordem.
Falamos do continente como um todo, ressalvando as honrosas exceções, como a África do Sul, por exemplo, onde há desigualdades econômicas e sociais apesar do desmonte do apartheid, mas o país é próspero. E neste continente é inconcebível falar em globalização pois ele, como um todo, encontra-se - e assim permanecerá por muito tempo ainda - como o resto do mundo estava há mil, mil e quinhentos anos ou mais: em estágio tribal, em que as relações sociais, econômicas e políticas se limitam a laços familiares, ao clã, a uma determinada raça.
A África parou no tempo e submergiu no esquecimento das nações que acompanharam o ritmo da história. A foto publicada ontem pela Folha para ilustrar a reportagem sobre os combates em Guiné-Bissau é emblemática: dois corpos estraçalhados de combatentes rebeldes ao lado de um carro ultramoderno e possivelmente novo em folha pois não tem sequer a placa de registro. A revolução industrial que impulsionou o mundo no século passado só chegou à África para beneficiar uma casta privilegiada e através das armas, estas, sim, sofisticadas e ao alcance de todos.
O continente africano está em frangalhos. No Magreb, a região ao norte, de cultura e civilização árabes, há alguns países, como o Marrocos, que desfrutam de certa estabilidade social, econômica e política - estabilidade da pobreza generalizada e do poder controlado por uma família real. A Argélia, hoje, é convulsionada pelo cataclismo provocado pelos fanáticos muçulmanos, de um lado, e a insensatez dos militares, do outro. Abaixo do Saara, a pobreza se torna mais intensa e tem-se agravado com o fim da Guerra Fria. Desde então, a região deixou de ser disputada pelas ex-potências mundiais que, ao menos, davam alguma esmola a seus habitantes.
A África não pode integrar-se à globalização. Que fique relegada ao esquecimento até que seus habitantes sucumbam à fome ou às guerras tribais. Este parece ser o sentimento dos nossos líderes mundiais.
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor de Política da Folha





