José Antonio Pedriali
José Antonio Pedriali
A silhueta
do monsenhor
Afasto-me o mais rápido que posso da multidão. Antes, um pedido de desculpa pela imprecisão de datas e locais. O ano é 1997, a cidade Santiago, o país Chile - e limito-me a estas referências. O papa João Paulo II reza a missa em um descampado, assistido por milhares de pessoas, algumas com ar devoto, algumas com aspecto irado - e esta ira era perceptível através de seus olhares, única parte do rosto que os gorros passamontanhas dos terroristas do MIR e da Frente Patriótica Manuel Rodriguez permitem vislumbrar. A maioria daqueles milhares está ali por impulso, por curiosidade e, principalmente, para ouvir o que tanto esperam - pois são pessoas simples, e as pessoas simples rejeitam o regime militar. E esperam ouvir, e jamais ouvirão, o anátema do pontífice ao regime de ferro e fogo comandado pelo general Augusto Pinochet.
Afasto-me da multidão antes que a missa termine para não ficar bloqueado pela segurança e pelos fiéis. Tenho pressa de iniciar a reportagem, e há, além das palavras do papa e do ambiente daquele parque, muitos pontos a abordar naquele dia. O papa se reunira com a oposição, até com líderes do Partido Comunista, e cada gesto, cada palavra sua em terras chilenas contém uma mensagem. O papa não excomungara Pinochet nem santificara em vida seus opositores, mas suas mensagens, lidas nas entrelinhas, são claras: é preciso mudar, é preciso respeitar o ser humano, é preciso conceder liberdade de expressão, de associação política etc.
Ao afastar-me, por trás do altar, vejo ao longe uma silhueta que também se afasta. Vamos na mesma direção, a silhueta à frente, eu muito atrás, e por isso tenho de correr para certificar-me de que é quem realmente imagino. Sim, a silhueta - e todo religioso com batina preta é uma silhueta ambulante - é monsenhor Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano. E ele, o detentor dos maiores segredos da Igreja Católica, articulador então há mais de 20 anos da tentativa de reconciliação do Vaticano com os países comunistas, sai sorrateiro, só, levemente envergado sob seu corpo já visivelmente cansado.
- Monsignore, desculpe, posso lhe fazer algumas perguntas? - Dirijo-se a ele em italiano, e ele, um dos maiores poliglotas deste século, responde-me - em português:
á- É sempre um prazer e uma honra falar com um jornalista brasileiro.
Um leve movimento de lábios revela a ironia de sua percepção, e ele se põe a falar, cauteloso como compete a um cardeal, mas solícito como uma freira. E da situação chilena passamos para a Polônia, em ebulição sob o regime do general Jaruzelsky pressionado pelo Sindicato Solidariedade, e daí ao restante do Leste europeu, sua especialidade. Ele fala das carências materiais desses países, do enfraquecimento de seus governos, da tensão social que, mais cedo ou mais tarde, deveria eclodir, da ação da Igreja do Silêncio, estimulada pela diplomacia do Vaticano, por ele, enfim, a manter-se silenciosa - e isto exasperava os católicos conservadores - até que pudesse manifestar-se sem restrições.
Despedimo-nos, e sua silhueta desaparece aos poucos, engolida pela poeira dos carros que deixam o recinto para integrar-se à caravana do papa. Dois anos depois daquele encontro, o Muro de Berlim virou pó e o regime comunista caiu como um castelo de cartas.
Monsenhor Agostino Casaroli faleceu ontem, aos 83 anos. Que sua alma e sua silhueta descansem em paz.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor de Política da Folha





