José Antonio Pedriali
Deram um
sopapo nelle!
E splash ... acertaram um tapa na nuca do ex-presidente Fernando Collor de Mello! Devemos repudiar toda e qualquer agressão, mas como o ato físico foi de pequenas proporções - no máximo deve ter desalinhado parcialmente o esmerado penteado da vítima - devemos interpretá-lo como a libertação de um grito calado na garganta por tanto tempo e que, enfim, foi expelido por outras vias que não as guturais.
Fernando Collor levou um sopapo, meio de raspão, é verdade, mas foi um sopapo. Não importa quem tenha sido o autor do tabefe, pois naquele momento o esbofeteador incorporou o desejo de muitos brasileiros em relação a um homem que fez do mais alto posto da República um escárnio. Um escárnio em relação ao cargo, uma afronta à consciência nacional e uma traição explícita da maioria de suas promessas (programa de governo ele nunca teve).
E agora, na condição de impedido politicamente, já que a Justiça deu seguidos pareceres de que ele não pode disputar cargo eletivo até o ano 2000, Fernando Collor, o cara-de-pau-mór, corre o país afora alardeando seu desejo de concorrer novamente à presidência da República. Dizem que nós brasileiros não temos memória, mas Collor não pode nos subestimar assim: afinal, elle foi escurraçado do Palácio do Planalto há menos de seis anos. E ainda não nos esquecemos.
Não nos esquecemos de sua arrogância durante todo o processo de impeachment, das garantias de honestidade que nos dava durante seu julgamento e que desabaram uma a uma assim que avançavam as investigações. De sua renúncia para evitar o inevitável, a cassação de seu mandato. De seu famoso ‘‘empréstimo’’ no Uruguai, de cinco milhões de dólares, das ‘‘sobras de campanha’’ que alegou ter utilizado para reformar os jardins suspensos da babilônica Casa da Dinda, de seus ‘‘sócios ocultos’’, que dispunham de coercitivo poder econômico à sombra protetora do presidente, de sua fortuna fabulosa cuja origem não conseguiu explicar até hoje e que, por isso, está sendo processado pela Receita Federal...
E agora elle está de volta, tentando criar um fato consumado - sua candidatura - para influenciar o Tribunal Superior Eleitoral que deverá decidir se elle pode ou não concorrer a um cargo antes do ano 2000, conforme determinação do Supremo Tribunal Federal. E o cara-de-pau-mór pretende basear sua campanha no argumento de que foi vítima de um complô, que o atual governo só é pródigo em aumentar as taxas de desemprego e sovina em proporcionar-nos melhoria de vida, o que fatalmente aconteceria se tivéssemos um crescimento econômico sustentado. As críticas à administração Fernando Henrique podem até ser fundamentadas, mas quem é Collor para pôr o dedo na(s) ferida(s) de FHC? Fernando Henrique pode ser o que é, e é rude na condução do Plano Real, mas sua rudeza expressa a coerência de um chefe de Estado que prioriza um plano de estabilização econômica.
Collor nunca teve programa de governo e muito menos plano econômico. A ‘‘única bala na agulha’’ que dizia ter - e era única mesmo - elle já disparou há muito tempo. Confiscou nossa poupança e a esperança da maioria dos brasileiros. E só.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor de Política da ‘‘Folha’’

mockup