José Antonio Pedriali
José Antonio Pedriali
As bombas
atômicas
de FHC
Felizmente não somos a Índia e o Paquistão, onde a realização de testes nucleares leva multidões às ruas para festejar a possibilidade de se matarem todos simultaneamente, não deixando pedra sobre pedra. Não dominamos a tecnologia nuclear, felizmente, mas de bomba atômica nosso presidente Fernando Henrique parece entender muito bem. Em três anos e meio de governo, ele fez várias detonações subterrâneas, que não foram captados sequer pelos satélites espiões da maior potência ocidental, os Estados Unidos. As explosões foram silenciosas, não provocaram abalos sísmicos como os experimentos paquistanês e indiano, mas a radiação foi pouco a pouco se alastrando, contagiando o país do Oiapoque ao Chuí.
As explosões nucleares realizadas por Fernando Henrique, com efeitos semelhantes à bomba de nêutron, que mata todo ser vivo e preserva o que for inanimado, atingiram principalmente os produtores rurais, industriais e comerciantes, produzindo efeitos colaterais catastróficos na oferta de empregos. Ou seja, as bombas comprometeram seriamente as bases de sustentação da economia, justamente o que o nosso presidente se propôs a reforçar. E, ainda como sequela dessas explosões, viraram pó os serviços públicos, notadamente na saúde e segurança.
É de se duvidar que nosso presidente estivesse a par das consequências nefastas das bombas, sobretudo a Grande Bomba - que ele mesmo batizou de Plano Real -, mas suas consequências estão aí, ninguém duvida mais que fomos vítimas de um ataque nuclear disfarçado de plano de estabilização da economia e agora estamos nos voltando contra ele, que consideramos nosso agressor. E as pesquisas de intenções de voto não deixam dúvida: Fernando Henrique está iniciando seu calvário como chefe de Estado justamente no momento em que não poderia carregar essa cruz. Em vez de ser reintroduzido com pompa no trono do Planalto poderá ser crucificado no Gólgota das urnas.
A situação se complica para nosso presidente, que em 1994 se elegeu no primeiro turno, humilhando seu principal desafiante, Luís Inácio Lula da Silva. E Lula iniciara aquele processo eleitoral com grande vantagem nas pesquisas eleitorais... A situação agora está se invertendo: embora o processo eleitoral não tenha iniciado - oficialmente será deflagrado em 5 de julho - ele de fato foi posto em marcha em janeiro do ano passado quando o Congresso aprovou a emenda da reeleição. De lá para cá, nosso presidente passou a ser confundido - e muito contribuiu para isso - com um candidato em campanha, e tudo, tudo indicava que ninguém seria páreo para ele. O Real era seguido à risca, os índices de inflação continuavam em queda, o frango podia ser comprado a menos de R$ 1 o quilo, os pobres e até os miseráveis tinham o que comer e - luxo dos luxos - faziam filas nas promoções de eletrodomésticos.
O sonho, como tudo o que é bom, acabou. O poder de compra dos salários, convenhamos, conserva-se praticamente o mesmo, beneficiando sobretudo as classes mais pobres - justamente as que se mantêm fiéis a Fernando Henrique. Mas a classe média, esta, coitada, continua comendo frango (um pouco mais caro) mas é a que está pagando o pato. E como classe média incluem-se a maior parte dos agricultores, os médios empresários, os assalariados ... e é neste terceiro segmento que a corda está arrebentando. O desemprego, fenômeno mundial provocado pela globalização, encontra no Real, como em todo e qualquer plano de estabilização, seu algoz mais inclemente. A classe média esbraveja - é nos grandes centros urbanos, onde ela se faz mais forte, que o prestígio de Fernando Henrique está em queda livre. Este segmento social, poderoso instrumento de formação de opinião, poderá se transformar no maior desafio para os planos reeleitorais de Fernando Henrique.
Epílogo: a radiação provocada pelas explosões ordenadas por FHC começam a provocar efeito no organismo de seu autor. Fernando Henrique tem meios e instrumentos para fazer cessar o efeito sobre si e sobre a nação. Se não conseguir, preparemo-nos: a quantas detonações nos submeterá seu sucessor?
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é coordenador de Política da Folha





