O olhar de peixe-morto do jogador Alex, do Cruzeiro, que esteve por alguns minutos na seleção que foi eliminada da Copa das Confederações pela Turquia, é o retrato do Brasil que esteve escondido por várias décadas dos brasileiros. Alex assemelha-se a Garrincha pelo menos no aspecto relativo à fome e às dificuldades financeiras e afetivas que ele deve ter passado na infância, sem que ninguém se propusesse a ajudá-lo. Apesar dessas dificuldades, Alex ainda mostra um bom futebol, enquanto Garrincha, o maior jogador de futebol de todas as épocas, não conseguiu jogar a plenitude de sua arte simplesmente porque foi usado pelos cartolas.
Estes dois exemplos fazem parte de um Brasil violento que existe desde a década de 50 do século passado, quando o número de habitantes não passava de 60 milhões. A elite governante daquela época jamais pensou em alavancar políticas de distribuição de renda, de ensino continuado, de salários dignos, longe disso. A preocupação era dar aos trabalhadores, que somavam mais de 60% da população, o mínimo possível para que não houvesse um levante armado, a exemplo dos que estavam ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa.
Não são somente Alex e Garrincha que foram e são usados pela elite, com a ajuda inestimável dos meios de comunicação, para distrair a atenção e a tensão do povo brasileiro. Na verdade, todo este povo é usado desde tempos imemoriais para ratificar as decisões governamentais. O filme ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles, tornou-se um marco da história política do Brasil por ter levado, com a maior explicitude possível, a realidade do Brasil aos brasileiros, aquela realidade tão bem escondida no fundo do baú pelos meios de comunicação e por ordem dos patrões.
Nos anos 60 do século passado, os professores de segundo grau e universitários eram muito bem informados sobre o que acontecia em termos políticos no exterior, principalmente na França, Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália, apesar da ausência de notícias políticas realísticas do exterior na mídia brasileira. Portanto, tinham mais ''cancha'', mais informações, tinham a ''cabeça-feita''. E passavam isto aos seus alunos.
A curiosidade despertou os alunos para uma visão mais universal de suas matérias, de seus trabalhos. Muitos transformaram-se em autodidatas, liam muito e muita coisa boa. O socialismo era a base filosófica. Outros partiram para ações sindicais, dada a necessidade urgente de se democratizar o país, como Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele tempo, ninguém precisava de um ''Cidade de Deus'' para conhecer melhor o Brasil. A investigação era feita ''in loco'' pelos próprios alunos e professores.
Foi nas décadas de 60 e 70, quando chegamos aos 90 milhões de habitantes que, apesar dos patrões mandarem e desmandarem nas redações de jornais, revistas, rádios e TV, os jornalistas brasileiros criaram comissões de redação, instituíram comissões de ética e lutaram por isto feito doidos, com greves, reclamações judiciais, muita bagunça. E com muitas perdas de vidas. O jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho são exemplos desta luta.
Os jornalistas daquele tempo não batalharam pelo que hoje se tornou uma obrigação: a imparcialidade. Eles queriam a independência para poder trabalhar com dignidade e sentido crítico. A imparcialidade nua e crua, sem opinião do jornalista que a princípio é um ser humano e, portanto, pensa, é coisa pequena diante da importância da independência que o repórter deve ter para poder escrever a sua avaliação da notícia.
O jornalista recém-formado de hoje não têm a mesma formação cultural, o mesmo embasamento teórico e, pior ainda, o mesmo espírito crítico dos profissionais formados há 30 ou 40 anos.
MARCIO VARELLA é jornalista em Brasília

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