Jornalismo, poder e ética - Áureo Nogueira e Emerson Castro
Jornalismo, poder e ética
Áureo Nogueira e Emerson Castro
O 3º Congresso Estadual dos Jornalistas, realizado em Londrina, de 12 a 14 de setembro de 1997, fez reflexões sobre temas essenciais da imprensa contemporânea. Os jornalistas e estudantes do Paraná e os participantes convidados apresentaram contribuições intelectuais que, colocadas em prática e assumidas como ideal coletivo, podem respaldar e aprimorar a atividade dos trabalhadores da informação em nosso Estado.
O Congresso discutiu a qualidade da informação e sua contribuição para a consolidação da democracia. A garantia da qualidade da informação começa nos cursos de Jornalismo. A escola deve ser entendida como espaço onde o estudante pode experimentar novos formatos de sua atividade e exercitar a crítica ao que é produzido no mercado, sob uma perspectiva independente.
A organização editorial e hierárquica das empresas de comunicação também se reflete no conteúdo da informação. A adoção de novas tecnologias tem gerado, muitas vezes, acúmulo de atividades para o jornalista, o que compromete a qualidade da informação. É necessário organizar as atividades jornalísticas e utilizar a tecnologia de modo a facilitar a rotina de apuração da notícia.
É preciso entender que o direito público à informação ultrapassa os limites do mercado. Como garantir a credibilidade da informação - e resguardar a função social do jornalista - diante das múltiplas interferências mercadológicas no conteúdo das matérias? Nossa proposta de ação imediata é criar conselhos de redação, formados por representantes da empresa e jornalistas eleitos, para discutir e avaliar as pautas e matérias.
Outra proposta de ação imediata é discutir, com a categoria e com a sociedade, a criação do ombudsman para as eleições de 1998. A proposta é instituir um ombudsman em cada grande região do Estado. Esse ouvidor vai comentar e avaliar o desempenho ético e técnico da mídia no processo eleitoral do ano que vem, recebendo críticas e sugestões da sociedade.
O 3º Congresso Estadual dos Jornalistas identificou sérios problemas na relação da mídia com a sociedade, o poder e a fonte. Muitas vezes, verifica-se uma certa onipotência da imprensa, sobre os problemas nacionais, com os meios de comunicação se colocando como juízes finais da História e estabelecendo uma atitude ora moralista, ora condescendente em relação aos poderes públicos e econômicos.
Outro problema grave é a falta de respeito com os cidadãos comuns, sobretudo nas páginas policiais e em relação às camadas pobres da população. Torna-se urgente fortalecer a consciência ética dentro da categoria, para evitar a promiscuidade com o poder e combater a sensação de onipotência. Ambas conduzem a graves distorções da informação. Podem gerar grandes erros - como a destruição de pessoas inocentes e o endeusamento de personalidades.
Para isso é fundamental mudar as relações dos jornalistas com a fonte, o poder e a sociedade. A liberdade de imprensa não pode prescindir do exercício diário da honestidade e da independência na publicação dos fatos. A liberdade de imprensa não existe senão como forma de assegurar o princípio de liberdade em todo o meio social.
A nova lei de imprensa, cujo projeto tramita no Congresso Nacional, é outra preocupação estratégica dos jornalistas, por seus reflexos na liberdade de informação e na própria democracia do país. Acreditamos que o projeto do deputado Vilmar Rocha (PFL-GO) apresenta alguns avanços, como o fim da medieval pena de prisão para jornalistas (substituída por prestação de serviços à comunidade), a tramitação sumária do direito de resposta (que não tira a responsabilidade do erro dos jornalistas) e a tarifação para as empresas que incorrerem em crimes de imprensa.
Apesar do avanço, o fim das mazelas do jornalismo não virá apenas com a aprovação da Lei de Imprensa. É necessário o aprimoramento da consciência, das técnicas e da formação intelectual do jornalista. Os profissionais de imprensa do Paraná querem contribuir para um debate nacional em torno da qualidade de informação e da auto-regulamentação ética na mídia.
A existência de laços promíscuos entre alguns veículos de comunicação, e o poder público, com o faturamento publicitário sendo a prioridade, em detrimento da informação, é exemplo de comprometimento ético. Vamos realizar ações em todo o Estado como forma de conscientizar e coibir abusos e distorções, além de fortalecer a consciência crítica das populações e evitar a cumplicidade de jornalistas com estruturas viciadas.
- ÁUREO NOGUEIRA é presidente do Sindicato dos Jornalistas de Londrina e EMERSON CASTRO é presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná





