Já faz tempo que a Folha divulga pesquisas eleitorais. Porém, essa foi a primeira vez que o jornal resolveu realizar suas próprias pesquisas. Após várias discussões internas, algumas ponderando que o risco de errar poderia comprometer a credibilidade do jornal, outras que esse não seria o ‘‘negócio’’ do veículo, concluiu-se que a empreitada valeria a pena, acreditando que o leitor tem o direito de receber dados confiáveis e com a marca de credibilidade de mais de 52 anos da Folha. Encerrada a disputa – com seus discursos acalorados – é importante avaliar o projeto Folha Pesquisa à luz dos fatos.
Há décadas a ciência abandonou a busca por certezas. Buscar a verdade é o objetivo maior de qualquer investigação com característica científica, mas isto é diferente de buscar certezas.
Podemos exemplificar essa idéia com a segunda rodada da Pesquisa Folha em Curitiba. Além de acompanhar a tendência apresentada por outros renomados institutos, ela foi a primeira a apresentar uma virada de Cassio Taniguchi (PFL) no segundo turno das eleições, com 48,7% das intenções de voto, contra 42,5% de Ângelo Vanhoni (PT).
Um questionamento científico poderia advogar que a realidade teria que ser considerada com a inclusão da margem de erro (4% para baixo e para cima na Pesquisa Folha). Assim, quaisquer números entre o intervalo que vai dos 38,5% de Vanhoni aos 52,7% de Cassio poderiam ser considerados verdadeiros.
Quem se preocupou em encontrar certezas tratou imediatamente de duvidar da pesquisa. Porém, os que sabem que a busca da verdade é algo que não cessa em uma ou outra investigação, e que pesquisas são ferramentas para identificar tendências, perceberam que um movimento importante estava acontecendo.
O último levantamento, feito no dia 24 na capital, apresentou uma acomodação desses números (Cassio 44,7% e Vanhoni 42,7%), e mostrou que o PT em Curitiba não estava conseguindo reverter o processo de queda iniciado cerca de uma semana atrás. Veio o pleito, e o que era tendência transformou-se em realidade. A expressão da verdade das urnas.
Em Londrina, a segunda rodada da Pesquisa Folha (coletada dia 19 e divulgada no dia 21) apresentou a possibilidade de acirramento da disputa na semana seguinte. Naquele momento, Barbosa Neto (PDT) aparecia crescendo, tirando mais da metade de sua diferença em relação a Nedson Micheleti (PT) no levantamento anterior. Porém, este, ao invés de se preocupar com ‘‘certezas’’, aparentemente soube ‘‘ler’’ corretamente a Pesquisa Folha. É inegável que a campanha de Nedson soube estancar, uma semana antes da eleição, qualquer ‘‘hemorragia’’ de votos rumo ao adversário.
No caso de Maringá, os três levantamentos realizados indicaram que não houve sequer um momento de indecisão por parte dos eleitores. Desde o começo a vantagem expressiva de José Cláudio (PT) foi mantida, até chegar aos 70% de votos válidos (a Pesquisa Folha deu 69,7%) registrados na eleição.
Se alguém do PT tinha alguma dúvida em relação à Pesquisa Folha, pôde constatar na noite de domingo o fato de que foi ela que lhe antecipou a possibilidade de vitória em duas de três cidades do Paraná. Em Curitiba, onde o coordenador da campanha de Vanhoni esforçou-se por desqualificar a Pesquisa – esquecendo-se de avaliá-la criticamente – a derrota se impôs, caprichosamente, pelos mesmos 51% dados a Cássio no último levantamento, feito 5 dias antes do pleito.
Ao final das pesquisas, ficam para reflexão algumas considerações. A primeira delas é que a Pesquisa Folha, que já identificara as tendências no primeiro turno, acertou quase na mosca nas três cidades em que pesquisou o segundo turno: Curitiba (diferença de 0,5% em relação aos números finais), Londrina (diferença de 2%) e Maringá (0,6% de diferença).
A segunda consideração é que precisam todos (veículos, institutos, partidos, candidatos e a comunidade) discutir e ampliar o debate, não só sobre as pesquisas, mas também sobre ciência e educação, sem as quais jamais se entenderá pesquisa nem quaisquer outras coisas.
Em terceiro lugar, a Folha mais uma vez mostrou, com seu conteúdo editorial, que respeita o leitor acima de tudo, registrando em suas matérias o questionamento da coligação de Cheida sobre a pesquisa no primeiro turno em Londrina, e a severa crítica do coordenador de campanha de Vanhoni no segundo turno em Curitiba, contra ela própria. Ao invés de ocultar estes fatos, a Folha apresentou-os ao leitor com detalhes, sem hesitação. Isto é jornalismo, não só com conteúdo, mas com ‘‘jota’’ maiúsculo.
- ÁLVARO FERREIRA é jornalista e gerente de Marketing da Folha do Paraná/Folha de Londrina

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