Jogos propagam ideia de escolas mais esportivas
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sábado, 06 de setembro de 2014
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
O paranaense Edgar Hubner, de 57 anos, está à frente de um projeto que tenta mudar o eixo da formação de atletas no Brasil, país onde a prática esportiva foi disseminada por meio dos clubes sociais.
Inspirado em potências olímpicas como Estados Unidos, China, Austrália, Reino Unido e Alemanha, o Brasil quer que a escola seja a âncora da prática esportiva de crianças e adolescentes.
O maior símbolo desta nova realidade são os Jogos Escolares da Juventude(JEJs), cuja edição para estudantes de 12 a 14 anos está movimentando Londrina desde quinta-feira.
As preocupações deste batalhão de adolescentes vão bem além das espinhas e do último bimestre do ano letivo. Eles vivem dias decisivos, quando são observados por técnicos de seleções nacionais. Formam uma indiscutível elite, que transpassou a gigantesca peneira buscada por dois milhões de adolescentes, de 40 mil escolas em 4 mil municípios.
O ex-diretor da Paraná Esporte e ex-presidente da Federação Paranaense de Handebol diz ser um exemplo do que a escola pode significar na vida de um jovem esportista. "Estudei no Colégio Estadual do Paraná. Lá tinha aula pela manhã e treinamento à tarde basquete, vôlei e atletismo. Minha história mostra que a escola é um ambiente propício e seguro para a atividade física", diz Hubner, que como professor de educação física viveria anos depois o outro lado da moeda.
Uma década no posto de gerente-geral de Juventude e Infraestrutura do COB e diretor-geral dos Jogos, o dirigente paranaense se tornou uma espécie de ouvinte privilegiado de todas as mazelas estruturais que afligem escolas e atletas país afora. Sem o poder de implantar políticas públicas o COB é uma entidade privada para resolver os gargalos, o comando dos Jogos comemora o envolvimento do Ministério da Educação nas fases iniciais do projeto. "Estamos melhorando", garante.
Qual é a contribuição dos JEJs para a formação de atletas de alto rendimento?
Dando oportunidade, você dá perspectiva. Os Jogos são importantes para entender o que precisa ser feito: aumentar a carga horária para a educação física, a necessidade do contraturno, melhorar a infraestrutura esportiva das escolas e dos municípios, oferecer material esportivo, contratar profissionais com formação em educação física, ofertar bolsas de estudo. Enfim, os jogos criam uma série de demandas que melhoram as condições de vida dos adolescentes. Além disso, quando se tem um grande número de escolas participando da formação da base, há uma tendência natural de que surjam destaques individuais. Não é nossa prioridade, mas é uma consequência do projeto. Qual é o raciocínio que as crianças que praticam esporte fazem? Se o COB organizará os Jogos Olímpicos e organiza os Jogos Escolares, posso seguir por este atalho para realizar o sonho de estar na elite do esporte. As confederações brasileiras de várias modalidades já perceberam o potencial dos JEJs. Estas entidades estão enviando técnicos das seleções de base para observar a garotada. Os Jogos Escolares são cada vez mais um campo de observação de várias modalidades, inclusive porque aqui estão escolas de regiões nas quais as federais estaduais não estão estruturadas. No vôlei, por exemplo, a seleção infantil tem 80% de integrantes revelados nos JEJs.
Quais países inspiram o COB para massificar o esporte nas escolas?
O COB fez uma análise das principais potências olímpicas e observamos que este grupo de países Estados Unidos, China, Austrália, Reino Unido e Alemanha - tinha várias coisas em comum: infraestrutura esportiva, centros de treinamentos adequados, forte investimento na base, intercâmbio de técnicos. No caso dos Jogos Escolares, construímos um programa que se tornou uma referência para o mundo. Desde 2009, 60 países já enviaram delegações para conhecer nossa experiência, que chama a atenção pelas dimensões continentais do nosso País e por não ser uma iniciativa exclusivamente governamental. Alguns deles terão nosso apoio para implantar projetos semelhantes.
Por que o modelo de jogos escolares do Brasil é considerado único?
Em nenhum país, além do Brasil, os jogos escolares são promovidos pelo Comitê Olímpico. Todos os outros países com os quais temos relação, este tipo de competição é promovido pelo Ministério da Educação. Nosso modelo é único. Temos vantagens: o dinheiro destinado ao esporte escolar nos é repassado e temos uma condição melhor para operar, além de não ficarmos dependendo de processos eleitorais para dar continuidade ao programa. No nosso modelo, me associo a um patrocinador, a uma empresa de comunicação e ao Ministério do Esporte e tenho assim um programa fortalecido. Há dois anos, o Ministério da Educação lançou o programa Esporte na Escola, que no ano passado começou apenas com o atletismo e agora conta também com judô, voleibol e atletismo. O programa seleciona as equipes dentro das escolas. Já são 20 mil escolas. O papel do ministério é esse: ampliar o número de escolas que disputam as seletivas.
Tem melhorado a estrutura dos municípios para a prática esportiva?
Os Jogos, de alguma maneira, ajudam na criação de novos programas e de novas políticas para melhorarem os equipamentos esportivos das escolas. Algumas delas, obtêm bons resultados e conseguem melhorar as condições para os alunos graças aos apoios de governos estaduais e municipais. Portanto, conquistam novas perspectivas tanto do ponto de vista material como também em relação a uma carga horária maior de educação física. É uma contribuição direta da participação dos jogos. Mas temos deficiências importantes ainda. Por exemplo, para realização dos JEJs preciso de uma cidade que tenha uma pista de atletismo oficial e uma piscina de 25 ou 50 metros de extensão e investimentos em 16 locais de competição. Várias capitais do Brasil não conseguem atender a estes requisitos. Ou porque falta a pista, ou porque falta a piscina. Em 2012, o Ministério dos Esportes iniciou um programa de implantação de pistas de atletismo nos campi das universidades federais, o que supre a necessidade de várias capitais, que não tem uma pista sequer.
A Rio-2016 aumentou o interesse maior por esportes olímpicos?
Muito mais modalidades entraram em evidência em consequência das Olimpíadas no Brasil. Alguns esportes são vistos hoje de forma diferente. O volume de investimento para esportes olímpicos aumentou. Melhoramos muito. Já estão surgindo novos ídolos.
A chamada monocultura esportiva brasileira, dominada quase que completamente pelo futebol, atrapalha a ascensão de outros esportes na preferência do público e das crianças?
O produto futebol é cativante para o público porque faz parte da nossa cultura esportiva. Como é cativante, é um bom produto. Por isso ganha mais espaço, mais repercussão e mais dinheiro. As outras modalidades lutam por espaço. Para isso, precisam de ídolos. Para ter um ídolo, é preciso bons resultados internacionais e um apoio que dissemine estas conquistas para o grande público. A partir deste ponto, é preciso também qualidade na gestão para garantir um trabalho de formação de atletas e de novos ídolos, como faz o vôlei, por exemplo. A sustentabilidade de uma modalidade não pode depender de recursos públicos. Mas para ter receita própria, é preciso que o fã da modalidade tenha conforto para ir ao ginásio. Também é necessário que neste ginásio tenha um verdadeiro espetáculo, que façam as pessoas desejarem estar ali. Se for só para ver o jogo, as pessoas vão ficar em casa.
Como o senhor avalia o preparo dos professores de educação física para treinar as equipes escolares?
Nos JEBs, o COB exige dos técnicos um registro no Conselho Federal de Educação Física. Com isso, houve uma mobilização das escolas para ter profissionais devidamente formados. Nas etapas estaduais, adotou-se a mesma política. Com isso já melhoramos o nível da base. Temos também um trabalho permanente de capacitação. O COB mantém a Academia Brasileira de Treinadores, que oferece um curso de dois anos. Começou com atletismo, natação e ginástica artística. Agora, a academia já oferece cursos de judô, lutas e taekondo. A faculdade de Educação Física é informativa. A formação, de fato, acontece depois da graduação.


