JOGOS PROIBIDOS - Guerra urbana dentro de casa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Decisão da 17 Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais proibiu neste mês a venda do jogo ''Counter Strike'' em todo o País. O game foi considerado impróprio por ser ''nocivo à saúde dos consumidores''. Uma nova versão do jogo reproduz a guerra travada entre policiais e traficantes nos morros do Rio de Janeiro, fazendo o jogador escolher um dos lados com o objetivo de aniquiliar o adversário.
Em entrevista à FOLHA, a psicóloga Maria Cecília Baltazar afirmou que este tipo de jogo, aliado à violência cotidiana, colabora para a mudança de comportamento do adolescente, que acaba ficando mais agressivo. A receita para controlar a situação, segundo a psicóloga, é a presença constante dos pais, acompanhando os filhos até em lan houses. ''Toda proibição provoca curiosidade. O pai pode permitir o jogo, mas deve estar mais próximo e orientar'', indica.
Qual a influência desses jogos considerados violentos na cabeça dos mais jovens?
Nossa sociedade já está muito violenta, e nesses jogos o adolescente passa a vivenciar ainda mais esse cenário. O maior problema é que, na hora de escolher o personagem do jogo, tem muita criança se identificando com o bandido. Você cria todo o perfil do ladrão, as armas que ele usa, as estratégias de ataque. Tudo bem que tem gente alegando que bandido e mocinho existem desde o faroeste nos filmes. Mas esse jogo é diferente, pois é como se você tivesse vivendo na pele aquela guerra urbana. Sem falar que o que sai de sangue durante o jogo não é brincadeira.
A alteração no comportamento está diretamente ligada à quantidade de tempo que o adolescente fica jogando?
As crianças de antigamente também brincavam por muito tempo, mas eram atividades sadias. Agora é diferente, porque envolve diretamente a violência. E o mais grave está em jogar por muito tempo sem o acompanhamento dos pais. Se a pessoa fica muito tempo diante do jogo, com pouco convívio social, pouco contato com a família, prejudica bastante. Por isso deve ter um adulto para controlar a frequência.
Como os pais começam a identificar as mudanças no comportamento do filho?
O principal sintoma é a banalização da violência, que passa no gesto, na briga com o irmão. A partir do momento que isso fica banal, posso machucar e matar que não tem problema. Por isso vemos casos de pessoas que têm pouco contato com os pais, pouca afetividade, e acabam virando sociopatas, psicopatas.
Proibi-los de jogar funciona?
É complicado, porque toda proibição convoca curiosidade. O pai pode permitir o jogo, mas deve estar mais próximo e orientar algumas coisas, como não jogar sempre com o mesmo personagem. Não ficar só jogando como bandido, mas também como policial, para que possa ver a história de um outro lado e ter compaixão por quem padece de problemas sociais e entender isso. É natural os pais quererem blindar os filhos, fazendo com que eles não tenham contato com outras realidades. Aí fica em uma redoma mesmo.
O ideal então é impor limites?
O adolescente não vai gostar, mas é necessário. Não só nos jogos, mas no computador como um todo. Hoje até para ver e-mails não demora menos que meia hora, demanda muito tempo útil. Por isso as pessoas estão muito ligadas no imaginário, no virtual e pouco ligadas no real. A gente não pode viver do imaginário.
Qual o reflexo que esta superexposição ao computador pode causar na formação das crianças?
A primeira geração está aí, é esta que acaba de se encontrar e vai para a internet conversar no Orkut, no MSN, porque ali ele consegue se expressar melhor. A pessoa se esconde, perde contato.
O computador, por outro lado, estimula a criatividade dos mais jovens. Como fazer para mantê-lo como ferramenta positiva?
Os pais devem abrir o histórico da internet com frequência para ver por onde a criança está navegando, qual o nível de interesse dela, além de colocar senhas para limitar o tempo de uso.
Os pais podem permitir que os filhos frequentem lan houses?
Sim, desde que estejam acompanhados. Pelo menos nas primeiras vezes. Também é bom conhecer o dono do estabelecimento, para ver se a criança está indo escondida e ainda adquirir uma certa confiança no local.
A proibição da venda dos jogos vai resolver alguma coisa na sua opinião?
É uma tentativa de segurar um pouco, porque as últimas versões estão realmente muito violentas. Mas, infelizmente, vai chegar aos jovens por outros meios. Cabe ao pais escolherem: quero que meu filho tenha muito ou pouco contato com a violência? É aí que entra a questão do limite.


