Jogos de interesses
No pensamento único, onde tudo é mercado, o futebol tem que deixar de ser entretenimento e/ou lazer para o corpo e o espírito - seja para quem pratica ou assiste - para ser mais uma mercadoria a ser vendido. E cada jogador em campo, além de ser um objeto nesse mercado deve também ser um out dor, levando no corpo a marca de empresas e/ou produtos.
Esse mercado, assim como os outros, vêm casados e, no caso específico do futebol, quase sempre e principalmente com os meios de comunicação. Os dois juntos têm agitado o mercado acionário a nível mundial, como ocorreu na Inglaterra em 2000, quando surgiram rumores de negócios entre clubes de futebol e empresas de comunicação. Os rumores foram sobre a venda de participação acionária do Liverpool, quarto maior time da Inglaterra em faturamento (R$ 127 milhões por ano), para o Granada, grupo dono da ITV (terceira maior TV da Inglaterra) e da ONdigital (TV por assinatura), com faturamento de R$ 11 bilhões por ano.
Só o futebol, a nível mundial, sem levar em consideração os negócios dos meios de comunicação, movimenta US$ 250 bi/ano, 25% da indústria de entretenimento, que movimenta um trilhão de dólares e emprega 450 milhões de pessoas.
Em nosso país o futebol movimenta, direta e indiretamente, US$ 2,5 bilhões/ano e emprega dois milhões de pessoas. Mesmo com essa movimentação, o futebol é, ainda, um mercado incipiente, ou para usar o jargão do Fundo Monetário Internacional (FMI), emergente. Temos 308 estádios com capacidade para cinco milhões de torcedores, portanto, muito ainda a explorar. Não só o Brasil, mas toda a América Latina, tem um mercado emergente, por isso é que tem muitas empresas interessadas e são apoiadas pelos organismos internacionais de financiamento, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que tem planos de investir US$ 60 bilhões em esportes nos próximos 5 anos na América.
Para explorar esse mercado, antes de tudo, precisa-se moralizar o futebol brasileiro. A grande maioria dos dirigentes -diretores de clubes, federações e empresários - do futebol são inescrupulosos: agem em causa própria, sonegam impostos e a previdência, falsificam idades e passaportes, traficam menores, principalmente, para a Europa, etc.. Essa situação ficou provada recentemente pelas duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Nacional (CPI do Futebol no Senado e CPI da CBF/NIKE na Câmara).
Todas as transações do futebol - venda de jogadores, tabela de jogos, convocação para a seleção, etc. - tem só um objetivo: o lucro naquele momento. Assim os horários de jogos, a escalação de determinados atletas passa a serem estabelecidas por empresas, proprietárias e/ou patrocinadoras de clubes ou redes de TVs que transmitem o jogo. Isso tem levado o nosso futebol a uma crise e ao descrédito afastando cada vez mais o público dos estádios.
No período de 1980-85 a média de pessoas por jogo, no Campeonato Brasileiro, era de 22 mil pessoas. Na Copa João Havelange foi de 10 mil. Aliás, essa Copa foi o melhor retrato do atual futebol brasileiro: fracasso de público e de direito de transmissão, pois esse direito foi vendido pelo Clube dos Treze por US$ 40 milhões para a TV Globo. Caso fosse o Campeonato Brasileiro teria sido vendido por US$ 70 milhões. Não bastasse isso, ainda tivemos as manipulações de torcidas por dirigentes e meios de comunicações. Uma Copa com prejuízos, não só financeiro, mas também de credibilidade.
Muitos alegam que o torcedor prefere assistir os jogos pela TV. Parte isso é verdade, porém os dias e horários determinados para os jogos são incompatíveis para a maioria da população ir aos estádios. Cada vez mais, no mundo, os esportes, e principalmente, o futebol, é atração na televisão. No entanto na maioria desses locais a TV não tem afastado o público dos estádios, ao contrário, tem contribuído inclusive para lotá-los. Que receita é essa?
A receita é simples: moralidade e organização. Em nosso País a desorganização e o interesse pelo lucro fácil têm feito do futebol jogos de interesses. Enquanto na Inglaterra o futebol é a maior atração das televisões, aqui além do público não comparecer aos estádios as transmissões de jogos pela TV não tem obtido os melhores resultados no Ibope. A audiência das partidas da seleção brasileira, que já chegaram a atingir 40 pontos no Ibope (equivale a 3,2 milhões de telespectadores na Grande São Paulo), não passou de 25 pontos nos últimos jogos, das eliminatórias da Copa do Mundo.
Esperamos que o futebol brasileiro, após as CPIs, e com nova legislação, já em debate na Câmara Federal, ganhe os trilhos da honestidade, moralidade e que os corruptos sejam afastado e punidos. Precisa-se remar contra o neoliberalismo e tirar o futebol dos atuais jogos de interesses e de mercado para que volte a ser espetáculos de arte e lazer.
Dr. ROSINHA é médico pediatra, deputado federal (PT-PR) e sub-relator da CPI do Futebol.





