Jogo-do-bicho no país do cassino oficial
A Polícia cumpre ordens, mas é no mínimo incoerente combater o jogo-do-bicho, no Paraná, quando o poder público no Brasil é o grande bancador de jogos de azar institucionalizados. Iniciada em Curitiba, a operação está mobilizando 120 policiais e 30 viaturas, e de início detectou uma centena de pontos de aposta. A campanha desdobrou-se também em outras cidades e já chegou a Londrina, a segunda maior do Estado. Essa modalidade de jogo é contravenção penal, mas há décadas tolerada e já incorporada ao folclore brasileiro. Todas as práticas que firam a lei devem ser abominadas, mas é contraditório atacar esse pequeno negócio (no sentido de envolver muitos formiguinhas, que tiram dali o seu sustento), quando o Governo arrecada milhões diários com as loterias. Tem-se escrito que o Brasil é um grande cassino paradoxalmente onde esses estabelecimentos são proibidos, o que é uma medida acertada embora o carteado corra solto em toda parte. No âmbito da legalidade da jogatina oficial o Governo banca loto-fácil na segunda-feira; quina e dupla-sena na terça; loteria federal, mega-sena e lotomania na quarta; quina de novo na quinta; dupla-sena novamente na sexta; outra vez lotomania, loteria federal, quina e mega-sena no sábado; e loteria esportiva no domingo. E quinta-feira o presidente da República criou a timemania. Tudo isto e mais o cassino eletrônico de Sílvio Santos e os sorteios esporádicos que acontecem continuamente em todo lugar. O brasileiro reclama da excessiva carga tributária e cheio de razão mas não se dá conta de que as apostas diárias das lotecas são uma forma indireta de tributação, porque é dinheiro que vai para os cofres da União e não se sabe claramente de que maneira retorna, a não ser pela bolada do prêmio. Está escrito no verso dos volantes que 4,5% da receita vai para o esporte, mais 1,7% específicos para o Comitê Olímpico, 0,3% para o Comitê Pára-Olímpico, 18,1% para a seguridade social, 7,76% para financiar o estudante universitário; 3,14% para o fundo penitenciário e 13,8% a título de imposto de renda. É do restante que saem os prêmios, embora não se saiba em que porcentagem. Agora com a timemania, sob a rubrica de atender aos times de futebol que com tanto dinheiro nunca conseguem resolver seus problemas a sangria sobre o bolso do povo será ainda maior. Com esse cassino público aberto sete dias por semana, minguadas economias dos mais pobres são desviadas do leite das crianças. Não se defende a prática de contravenções, mas se é preciso acabar com o jogo-do-bicho, que se comece por eliminar os jogos que hoje o Governo banca e que descapitalizam as cidades pela coleta diária de tanto dinheiro.





