Jogo de sombras pré-eleitoral
Fernando José Dias da Silva
Todo mundo usa a mesma tática. E o povo cai sempre na mesma armadilha. O discurso de falsas imagens não é mais feito somente em período pré-eleitoral. Ele virou um dos ramos de marketing político utilizado por aqueles que já estão no poder e que precisam fazer exercícios de prestidigitação para justificar o injustificável.
Agora a moda é dizer que o neoliberalismo caminha para o fracasso, que o Consenso de Washington é teoria que já foi aposentada e se caminha para o limiar de um novo humanismo. Talvez seja futurismo demais para analisar o que realmente está acontecendo.
A situação econômica do centro – Estados Unidos mais, União Européia menos – é de dar inveja. Enquanto a periferia continua em situação de miséria crescente. Ou seja, até aí tudo normal, nada mudou. Como Minas Gerais, estamos onde sempre estivemos. Mas aí também seria otimismo demais. Na verdade, nós estamos piorando sempre de forma cadenciada, homogênea e ininterrupta. A degradação das condições econômicas dos países menos desenvolvidos, que formam a periferia do sistema, é resultante de um processo que transfere renda dos mais pobres para os mais ricos – o núcleo central do sistema.
Tempos atrás, este processo se dava pelas condições de troca de mercadorias. Hoje, esta situação é agravada pela transferência de pagamentos por serviços, juros de empréstimos, royalties pelo uso de tecnologias, despesas de comunicação, transportes e outras novidades vindas com a globalização e a modernização.
A situação se torna perversa em tal medida que os países em desenvolvimento também se tornam predadores entre si. Tentam ocupar nichos econômicos dos outros, mas nem por isso melhoram a situação interna. A disputa entre Brasil e Argentina mostra isso. A guerra fiscal entre os Estados brasileiros subsidiando a implantação de empresas estrangeiras também mostra o nível da queda de braço. Todos perdem, é inexorável.
Na Argentina, apenas três meses depois de ter chegado ao poder, o presidente Fernando de La Rúa, eleito por uma aliança de centro-esquerda, pretende acabar de vez com o que restou dos direitos trabalhistas expostos a saga desregulamentadora e liberalizante do antecessor, Carlos Menem. A Argentina tem taxa de desemprego de 14%.
Flexibilizar mais ainda a legislação trabalhista não vai resolver o problema, apontam especialistas não engajados. Mas eles continuam no mesmo caminho. Como aqui no Brasil, que insiste em acabar com direitos alegando que assim a chamada empregabilidade melhoraria. Tese rechaçada por estudiosos como Márcio Pochmann, da Unicamp.
Apesar de tudo, o discurso continua o mesmo e é uniforme na maioria das vezes entre personagens que vão da esquerda até à direita. Mais ou menos a coisa se resume assim: nenhuma medida decisiva é tomada para enfrentar esse tipo de problema, mas existe sempre um ativismo verbal por parte dos detentores do poder que tenta mascarar a situação.
Nesse jogo de sombras começam a surgir aqui e ali pessoas pensando que a verdade fundamental do governo, dos governos é simples mas dramática: não existe governo. E eles sabem que não têm gestão econômica, são dominados pela economia do mercado e pelo capitalismo globalizado, por isso são incapazes de oferecer uma alternativa séria.
Será que é pessimismo demais?
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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