Jogo de capitais - Antoninho Marmo Trevisan
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de novembro de 1997
Antoninho Marmo Trevisan 
Essa de que caiu muito porque tinha subido bastante não me convence como a única e razoável explicação sobre o sobe e desce das bolsas de valores em todo o mundo. Prefiro ficar com a frase do velho e sábio banqueiro paulista: Vendo quando todos estão comprando e compro quando todos estão vendendo. Esse é o verdadeiro jogo do mercado e de um mercado que se torna cada vez mais volátil. A informação em tempo real repercute, prolonga e, às vezes, aprofunda os efeitos de ações especulativas no mercado financeiro e de capitais.
Como explicar impactos aparentemente cadenciados e harmônicos em continentes tão distantes? Não são povos diferentes, com culturas particulares, mercados específicos, bolsas de valores próprias? Sim, os povos são diferentes mas, no fundo, os investidores são os mesmos. É a era da globalização que, ao contrário do que muitos pensavam, em vez de diluir riscos vem, na verdade, concentrando poder e contaminando economias. A gestão dos capitais está cada vez mais nas mãos de poucos, muito poucos, e as nações se tornam cada vez mais parecidas nas formações de blocos econômicos e na busca interminável de fusões e mega-fusões entre empresas. Não poderia ser diferente. Quando pelo menos 2/3 dos negócios entre países são realizados por companhias transnacionais, as decisões são orquestradas por intermédio de uma gigantesca rede global implacável, fria e coerente. É o mundo dos negócios contemporâneo, que surpreende os analistas e operadores de bolsa mais calejados, derruba caciques regionais e é capaz de, de uma hora para outra, destituir países emergentes até então festejados, como os Tigres Asiáticos, da categoria de referência para o resto do mundo.
E por que? Parece que os investidores, quando elegem um país emergente, fazem apostas sobre a rentabilidade futura do investimento feito. Em geral, essas apostas criam expectativas elevadas que, por mais que esses países tentem e se esforcem, não conseguem alcançar. E aí é o momento de retirar o capital, transformá-lo em moeda e buscar, por uns tempos, terras mais férteis ou terrenos mais seguros, deixando o descontrole como legado àquele país emergente, em geral com infra-estrutura física, jurídica e política ainda pouco consolidada.
Como evitar que essa submissão seja tão comprometedora e eventualmente provoque danos tão profundos? É inegável que num regime capitalista, servir-se de capitais nômades é uma das formas de acelerar o crescimento econômico e sonhar com uma melhor renda para a população. Mas é possível ficar imune a ataques especulativos? Parece que não. Qualquer decisão pode virar justificativa consistente para especulações, a menos que sejam contidas por um rígido controle do orçamento público, que inclui até mesmo a convivência com déficits.
Aliás, fará bem ao Brasil, a bola da vez como país emergente no banco de apostas dos investidores, se preparar para isso. Ter uma previdência social com ativos e passivos equilibrados e uma política industrial global para nortear os empresários na adoção de rumos menos custosos e mais eficazes. Estimular a contratação de mão-de-obra e redução do desemprego, desenvolvendo regras trabalhistas mais adequadas à realidade econômica atual e mundial. Investir em educação e saúde, sinalizando um futuro mais promissor. Reformar regras políticas partidárias, para dificultar ações de grupos oportunistas e permitir que a verdadeira vontade popular seja exercida, o que, de quebra, dará segurança ao empreendedor. Ser implacável no cumprimento das leis, conquistando o respeito da comunidade e afastando aventureiros sem alma. E, acima de tudo, valorizar o que é seu, sua história, seus costumes, suas empresas e seu mercado.
Por fim, a lição que tiramos é a de que é preciso ter cautela - muita cautela - para abrir a economia e abrigar capitais viajantes e descomprometidos. Para eles, o que importa é o lucro e apenas isso. O resto, bem, o resto é problema do país e do povo que ficou com o mico na mão.


