Há um mundo novo aí fora. Tenho resistido conhecê-lo – seja por preguiça existencial ou apego saudosista – mas ao ouvir reiteradas vezes a máxima catalizadora da modernidade liquefeita (‘jogue com responsabilidade’) entendi que já não podia seguir sendo apenas paisagem...

Jogar é, por definição metafórica, arriscar, apostar. Assim, a tantada de influenciador (efeito colateral da pós-verdade) ao sugerir o exercício da aposta mitifica (por aval) o exercício da aposta.

Por apego a saúde mental das gentes, não podemos seguir esse caminho impunemente...

Nada contra a pessoa fazer, da vida, o que bem entender – seja influenciador ou contraventor. O que turva a água é a mentira desenfreada que chama para o jogo, notadamente se o chamado vem de quem tem milhões de seguidores...

Um influenciador ao alardear (o bem ou o mal) internaliza no mundo onírico das pessoas comuns (eu + você + o Zé) o cadafalso da multidão, estabelecendo a ‘sensação das cordilheiras’.

A fala bifurcada dos influentes estabelece uma falsa visão do risco, naquilo que a adrenalina da possibilidade nos aproxima dos sonhos. Vem sendo assim há muito tempo – lembro que o caubói do cigarro marlboro morreu de câncer...

Essa falsidade sugestiva induz o incauto que busca mais da vida (de sonhos a comida em abundancia) a acreditar que, em jogando, tudo será mais fácil, estabelecendo o contexto (literário) da carta de Caminha (Pero Vaz), resumida no que interessava a coroa – ‘em se plantando, tudo dá’.

Ainda que verdadeira a afirmação, o caminho do cultivo não estava sequer considerado na conclusão. Quem colonizaria? Quem plantaria? Quem aproveitaria a benção da colheita?

Não se busca, aqui e agora, um qualquer paralelo entre a coroa lusitana e os exploradores de crença alheia (não falo do bispado neopentecostal e nem da santa inquisição), mas sim traçar as linhas que pavimentaram nossa colonização fundiária na moderna colonização dos costumes, uma vez que a colheita maldita segue sendo herança do modelo explorativo das gentes.

Não por acaso no caminho da construção das fortunas que orbitavam a Corte Portuguesa se colocou o capitalista explorador de crença propagandeada por influenciador de hipótese de sucesso financeiro – ‘em se plantando tudo dá’.

A ilusão está, agora, vendida por influenciadores em forma de risco associado ao sucesso.

Não domino o mundo digital – estou bem distante disso. A propósito sou tosco em minhas aptidões tecnológicas, mas sei identificar uma prosa enviesada. A vida dá sinais e estes não devem ser desconhecidos.

Assim, quando aquela moça bonita, em algum lugar de sua prosa, solta a fala que me incomoda pela hipocrisia de sua consecução (‘jogue com responsabilidade’), se descortina toda a efeméride de nossa existência, resumida então na miserabilidade desempática de viver como se o outro não fosse senão um ponto de apoio para alavancar nossos próprios interesses – sejam estes de qualquer natureza...

Ao assumir a condição de influenciador a pessoa carrega no dial da existência uma dose extra de responsabilidade – afinal, seus milhões de seguidores abraçam a crença moldada, desenhando suas aptidões e traçando seus caminhos (escolhas) no rumo desejado pela matriz de seus anseios.

A moça que ‘chacoalha no trem da central’ olha para Virgínia e imagina que acreditá-la, reproduzindo jeitos e trejeitos, lhe garante um bilhete dourado rumo ao sucesso (seja lá o que for isso), reproduzindo a essência dos influenciadores: vender a ilusão de uma conexão inexistente.

Sopesada a necessidade de pertencer que nos aterra, a juventude digital que o século XXI produziu está trocando o rumo das relações sociais, estabelecendo em lugar do convívio físico que acalentou toda a aventura humana até então, um conceito blasé de normalidade digital que permite represar os anseios e alongar as fantasias.

Aí entra o influenciador com um novo limite de excelência, represando o bom da vida em utopias de rede social, estabelecendo um cansaço físico e mental a desfavor da humanização das relações, naquilo que catapulta a angústia de existir em comunhão com as promessas subliminares de sucesso.

Ainda que Virgínia e todos os que joguem em seu time não se furtem ao óbvio, a hipocrisia exploratória das gentes está bem delineada na matriz de nosso abandono empático: ‘joguem com responsabilidade’.

Tristes trópicos, onde empatia segue natimorta e a exploração das gentes marcha sua triste sina de sempre...

Saudade Pai.

João Gomes Filho, advogado

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