MORAL EM CRISE
Joel Samways Neto
É lamentável o Brasil carecer de escândalos para se equilibrar, para expurgar de seus bofes a corrupção que o corrói. Por que foi necessária uma comissão parlamentar de inquérito para detonar as ligações perigosas entre o narcotráfico e os poderes constituídos? Implicações com agentes dos três poderes da República, nas três esferas de governo, pois não? Executivo, Legislativo e Judiciário, ora um parlamentar, ora um juiz, ora um prefeito, ora um secretário, ora um assessor... Por que o sistema só conseguiu vomitar os podres depois dos shows da CPI? As polícias, civil e militar, não têm suas respectivas corregedorias, seus conselhos institucionais? O Judiciário também não tem a corregedoria de Justiça? Quando essa CPI veio ao Paraná, em poucos dias o esparramo estava feito. Policiais e delegados receberam voz de prisão e saíram da audiência algemados. Traficantes, idem. Estremeceu até a cúpula do governo estadual. Logo a seguir, caía o secretário de Estado da Segurança Pública. Seu sucessor nem bem esquentou a cadeira e já estava às voltas com o estouro de um fortíssimo esquema de desmanche de carros roubados, bem-sucedida operação conjunta entre polícia e Ministério Público. A par desses acontecimentos, o governo deflagrou mudanças, nomeações de novos agentes, instalação de novos equipamentos etc. Ficará no ar a dúvida sobre se tudo isso teria ocorrido se a escandalosa CPI não houvesse passado por aqui.
Outra demonstração de que o escândalo é combustível do nosso processo político é o caso Celso Pitta, o prefeito de São Paulo. Devido a um rompimento no relacionamento conjugal, sua mulher, ora ex, foi à berlinda da mídia e atirou uma porção de coisas no ventilador. Entregou a cabeça do marido numa baixela à opinião pública. Acusou diversas pessoas, deu nomes, contou histórias... E como envolvia personagens não gratos a uma significativa fatia da imprensa – Maluf, Magalhães & Cia. – a fogueira foi, vem sendo, alimentada com lenha verde. Desafetos recíprocos, escudados em emissoras de televisão rivais, deram outras dimensões ao fato. E no olho do furacão as declarações supostamente bombásticas da ex-primeira-dama. Shakespeare estava certo – novamente – os céus não conhecem fúria maior do que a da mulher rejeitada.
A pergunta que deve ser feita, neste momento, é por que foi preciso a frustração da vida íntima do homem público para gerar toda a celeuma? Alhures, ouvia-se alguém clamar por uma revolta das primeiras-damas. Senhoras primeiras-damas, uni-vos! Revoltai-vos! A traição de vossos maridos será a redenção da Pátria! Ora, bolas. O próprio filho do Pitta depôs contra. E a mídia de rapina, ali, dando close-up. Pouco importava se, anexo às declarações, o moedor de carne triturava também a instituição da família. Isso é coisa que até a Inquisição sabia preservar. Será difícil encontrar, nos processos que condenavam os acusados a morrer queimados, depoimentos de filhos contra seus pais, de pais contra seus filhos, de cônjuge contra cônjuge. Porque a Igreja, em meio às trevas do Medievo, conhecia o significado da família na sociedade humana (o que já não se viu no Nazismo nem no totalitarismo soviético, nos quais os traidores da família em defesa do Estado eram condecorados como heróis). Não é preciso ser sociólogo para perceber o que representa para uma Nação o enfraquecimento dos vínculos familiares.
Felizmente, algumas opiniões colhidas dos cidadãos comuns, publicadas em noticiários, programas e seções de variedades, em rádio, TV, jornais e revistas, estranhavam a atitude de dona Nicéa. Alguns perguntavam por que só agora ela estaria contando tudo, e não o fizera antes, quando até poderia estar se beneficiando da situação. Outros chegavam a defender taxativamente o cônjuge, perguntados sobre o que fariam se estivessem no lugar dos Pitta. Quer dizer, para algumas pessoas, ainda prevalece a lealdade construída na história comum de um casal.
Não se está criticando o resultado de mais esse escândalo (em que pese não haver, até agora, mais do que fortes indícios de corrupção). O reprovável é o meio utilizado pela mídia, a exposição e a exploração das confissões da esposa rejeitada e do depoimento do filho angustiado. Estão esgarçando símbolos da sustentação da moralidade pública.
Penso que nem a imprensa nem o Estado precisariam aguardar um escândalo desses para combater a corrupção com o dinheiro público. Bastaria uma providência administrativa: o levantamento das declarações fornecidas à Receita Federal pelos acusados e seus familiares. E que cada um explicasse a origem do seu patrimônio. Não haveria escapatória.
Mas também não haveria tanto ibope, não é mesmo?
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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