A LENDA E A GANGRENAJoel Samways Neto Havia, dentre as lendas paranaenses, uma que contava coisas a respeito de peculiares procedimentos policiais, nada convencionais – ou, ao menos, nada das convenções da doutrina ensinada na academia de polícia. São contos, aforismos, canções, marchinhas, assimiladas pelo relicário popular, que descrevem os tais procedimentos, e, na boca do povo, vão sendo transmitidas de geração a geração. Alguns feitos são de arrepiar, desses que não deixam as crianças dormir à noite, e despertam a curiosidade mórbida dos adolescentes. Lendas, lendas. Histórias consideradas históricas, porém de autenticidade por ser comprovada. Daí porque, como as demais lendas, ficam no estoque do imaginoso, do fantástico. Pudera. Imagine uma polícia que não age como polícia, e que pudesse cometer um achaque contra cidadãos honestos. Cidadãos que estão trafegando tranquilos em seus automóveis, e, de repente, são abordados por policiais, sob alegação de furto de veículo. E, simulando revista, policiais deixam um pouco de cocaína, ou maconha, debaixo do banco do motorista – ou simplesmente alegam esse fato. E levam esses cidadãos para a delegacia, para serem autuados e presos por flagrante delito. Mas antes de iniciarem os rituais do indiciamento, antes mesmo de chamarem o advogado de plantão à porta da cadeia, propõem os policiais um acordo. Prometem fazer de conta que nada viram, desde que os cidadãos prometam entregar certa quantia em dinheiro. Dinheiro suficiente para cobrir os percentuais cabíveis ao investigador, ao escrivão, ao superintendente, ao delegado adjunto, ao delegado e sabe-se lá onde vai parar essa hierarquia. Se os cidadãos se recusarem, serão autuados por tráfico de drogas. E se insistirem em fazer valer seus direitos constitucionais, exigindo a presença de advogado decente, os policiais ameaçam mantê-los guardados no xadrez sem registrá-los no livro de ocorrência ou na lista dos detentos. E mais, dizem que poderão ficar mudando os cidadãos, de delegacia em delegacia, só para dificultar sua localização. É o que diz a lenda. Outras histórias fantásticas dão conta de negócios entre policiais e traficantes. Estes fornecem àqueles parte do carregamento, ou o total, se bobearem e forem pegos. Devidamente pagos, os traficantes poderão ter certeza de que conseguirão escapar das celas. Outras histórias, ainda mais terríveis, bem ao gosto do populacho, tratam das tragédias familiares. Pais e mães às voltas com seus filhos usuários de drogas, filhos pegos, presos, ameaçados de passarem de usuários a traficantes com um simples manejo da vírgula no numeral que indica a quantidade de droga apreendida. Ou ameaçados de aparecer com a boca cheia de formigas e com marcas de açoitamento pelo corpo, se não pagarem propina. Não fazem parte dessas lendas o choro desesperado das mães, a angústia torturante dos pais, o pavor dos cidadãos diante da impotência de uma segurança pública que não assegura coisa alguma. Não é lendária a sensação de insegurança e a desconfiança lançada contra as autoridades constituídas. A realidade da dor de cada uma dessas pessoas, vítima da covarde ação de alguns policiais, materializou o imaginário. Um a um, o sentimento de ultraje, de vexame, de indignação, das vítimas dessas histórias lendárias, construiu uma ponte de acesso ao Poder Legislativo, que respondeu com uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o narcotráfico. A CPI que aportou no Paraná, semana passada, sacudiu o pó, literalmente, debaixo do tapete da lenda, e fez os paranaenses verem que um pedaço do braço forte, talvez um dedo, do poder estatal estava gangrenado – e isso não era nenhuma lenda. A imprensa disse que a cúpula da polícia civil estava envolvida com o narcotráfico. Toda a cúpula? Não. Nem o governador do Estado nem o secretário de Estado sabiam o que estava acontecendo, seja como fato, seja como lenda. Agora, o que o topo da cúpula não pode ignorar é que as denúncias significaram um pontapé na boca do estômago da população, atingida no sossego da alma. Porque segurança é básico como saúde. E foi eleito um governo para que desse conta, no mínimo, do que é administração pública mínima, aquela que administra o básico. Desfeita a lenda, exposta a gangrena, o discurso governamental passou a ser o da cirurgia radical. Decisão que nos custou um mandato e meio, de demora, para acontecer. Resta-nos saber se, extirpado o dedo gangrenado, o braço funcionará a contento. Ou se tudo não acabará fazendo parte de outra lenda, uma que contará que um dia um escândalo destruiu alguns pilares da cúpula do governo, e a cúpula não caiu. Indigna-te, Paraná!