Joel Samways Neto
Cada vez mais a imprensa corre o risco de ser enquadrada como espécie do gênero insegurança pública. A imprensa em geral, não só aquela notoriamente sensacionalista. Num crescendo sem ralentando, a forma de divulgar notícias vem assumindo o contorno daquilo que há de mais nojento no submundo policial, quando a polícia espanca suspeitos fundamentada no princípio de que se ela não sabe por que está batendo eles sabem por que estão apanhando: ‘‘Fala, desgraçado!’’
Os defensores da mais ampla e irrestrita divulgação fazem um nó cego com os direitos individuais dos cidadãos desta República Federativa, tendenciosamente, óbvio. O que vem primeiro: o direito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, ou o acesso de todos à informação e a liberdade da atividade de comunicação? Um falso dilema, na verdade. Pois nenhum democrata que se preze pode ser contra o livre acesso à informação, ou à inviolabilidade da honra, da imagem etc. A questão está na forma de encaminhar a informação, não tanto seu conteúdo.
A viga-mestra dos meios de comunicação tem sido, basicamente, as versões a história. Claro, tudo são versões. Como dizem os historiógrafos, a verdadeira história nunca foi escrita. O que se tem são documentos, declarações – mais recentemente, fotos, imagens, gravações. Ou seja, retalhos da totalidade dos fatos. Agora, o que significa um desses pedaços fora de seu devido contexto? Pode significar qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma.
Na atual mentalidade jornalística, patrulheira, açodada pelas urgências mercadológicas, os furos são feitos desses retalhos. De repente, encontram no estabelecimento de um laboratório clandestino uma anotação, feita à mão, do telefone de uma determinada empresa. Pronto. A tal empresa aparecerá na notícia como implicada nas ilicitudes cometidas pelo malsinado laboratório. Não importa se o telefone da empresa está no catálogo telefônico, não importa se o papel apócrifo fora plantado, ali, pela concorrência, ou se não se tratava de um esquema de chantagem... E sabe-se lá quantas outras hipóteses que poderiam explicar o aparecimento daquele papel. Até a hipótese de real envolvimento. Mas por que esta é que deve prevalecer? Por que sempre a pior hipótese?
Numa reportagem de meia página, o assunto era a denúncia contra o senador Luiz Otávio Campos (sem partido-PA). Ele fora indiciado pela Polícia Federal por crime contra o sistema financeiro, em inquérito que investiga um desvio de US$ 13 milhões, dinheiro recebido pela empresa do senador, a Rodomar, em 1992. O título da matéria: ‘‘Senador acusado de desviar US$ 13 milhões’’. Ao lado da matéria, de quatro colunas, um box, de duas colunas, com uma rápida entrevista na qual o senador nega o envolvimento, afirma que tudo não passa de armação política, que continua pobre, e, o que é mais importante, que não foi ouvido no tal inquérito.
E essa coisa não foi publicada em nenhuma imprensa marrom, não. Foi publicada no respeitável ‘‘O Estado de S. Paulo’’. Veja, leitor. Pode ser tudo verdade. Mas se for armação, o respeitável jornal terá servido de tabelinha numa jogada safada. Se for armação, o senador jamais se livrará da pecha de ‘‘implicado’’, ‘‘envolvido’’, num escândalo financeiro. Nem que use espaço de direito de resposta, nem que fique rico com uma ação judicial de indenização.
Voltemos à história da imprensa paranaense. Lembra dos supostos rituais de magia negra cometidos pelas bruxas de Guaratuba, que sacrificavam crianças? As ‘‘envolvidas’’, ‘‘implicadas’’, mãe e filha de uma família tradicional daquela cidade, ficaram na prisão durante anos, até serem absolvidas por falta de provas. Quando deixarão de ter seu nome, sua vida, associados à bruxaria do litoral?
Neste País onde se pode forjar qualquer coisa, até dossiê falso de contas no exterior do presidente da República, com ‘‘assinatura’’ e tudo, nenhum cidadão está livre de ser sentenciado pela imprensa a carregar, para sempre, em sua história pessoal, o estigma de ‘‘envolvido’’. A imprensa talvez não saiba por que bateu, mas ele decerto sabe por que apanhou.
P.S.: Mil sem-terra cercaram o Fórum de Quedas do Iguaçu, semana passada, impedindo a livre circulação do juiz, do promotor e dos funcionários. Protestavam pela libertação de 9 sem-terra, presos em flagrante por furto qualificado, estelionato e formação de quadrilha. Segundo matéria da jornalista Sandra Mara Mendes (dia 11), o promotor disse que tudo transcorreu bem e o bom senso prevaleceu. Nenhum dos manifestantes foi preso em flagrante por crime contra a liberdade individual. Pelo jeito, eles devem ter um código penal diferente do nosso.

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