Joel Samways Neto
JOEL SAMWAYS NETO
Toque de popularidade
Sempre é bom refletir a respeito da popularidade, obsessão da maioria dos políticos brasileiros na atualidade. Quem poderia esquecer, por exemplo, da desequilibrada que Sílvio Santos aplicou na corrida eleitoral à presidência da República, daquela vez em que se dispôs a concorrer? Ficou no páreo só um pouquinho, afastando-se logo a seguir, com problemas nas cordas vocais. Foi tempo suficiente para todos sabermos que ele já era o virtual presidente. Afinal, foram décadas de campanha, não eleitoral, mas de popularidade, todos os domingos passando o dia inteiro na casa dos brasileiros. O que ele sabia de política? A essa pergunta ele se adiantava respondendo que se cercaria dos melhores assessores, como tinha feito com suas bem-sucedidas empresas.
Outro fenômeno interessante, embora incomparável ao seu Sílvio, é o apresentador Carlos Massa, o Ratinho. Ele consegue manter altos índices de audiência, e, consequentemente, uma grande valorização do espaço publicitário que ocupa na mídia. Já que foi deputado federal. Se alguém souber de algum projeto de lei que ele tenha feito durante todo o seu mandato, escreva para a Redação desta Folha. Se bem que isso não importa ao seu eleitorado. Ratinho pode se candidatar a qualquer coisa, e terá expressiva votação. Os políticos profissionais adoram estar do seu lado, principalmente para a fotografia. Pensam que popularidade pega.
Estão vendo o padre superstar Marcelo Rossi? Já recebeu dos nossos deputados estaduais o título de cidadão honorário do Paraná. Duvido que haja algum político que não gostasse de pegar uma carona na popularidade dele (talvez até os da bancada evangélica). Tudo porque tem eleitor que não pode ver seu ídolo (cantor, ator de novela, jogador de futebol...) ladeado por políticos e já vai fazendo identidade com eles pensa que são do seu time. E vota neles.
POLÍTICA NO POPULAR Daí que os escritórios de marketing político, artífices de boa parte dos candidatos que aparecem no menu eleitoral, preocupam-se em encontrar a linguagem do povo e, com ela, alfabetizarem seus clientes. Basta notar o que tem de político, que não era disso, carregando no ôr sertanejo e lançando mão de clichês regionalistas. Qual é o preparo intelectual que esse tipo de treinamento exige? O preparo para decorar frases-feitas, pois delas é extraída a matéria-prima da mídia. O jornalista retira uma dessas, entre aspas, recheia o espaço com sua criatividade e está pronta a matéria a ser publicada. Por isso, muitos políticos se especializam em só fazer frases. Frases que servirão de vinheta, de estampa na faixa, na camiseta, no boné, no adesivo. E o eleitorado vai pensar que o fulano é um crânio. Fazer piadas, respostas rápidas, de bate-pronto, são elementos que atribuem inteligência ao político.
No entanto, nada supera o que é dito no popular. Certamente, eis aí uma das causas do festival de besteiras e mediocridades que assistimos a cada pleito eleitoral. Vale xingar, fazer insinuações desairosas contra a pessoa dos adversários, até inventar estórias. Dizem que o povão gosta disso, e que se maravilha se a fala for acompanhada do famoso murro na mesa.
CRÍTICA NO POPULAR Quanto do nosso atraso civilizatório devemos a esse tipo de média com as massas? Lembro que, há cerca de um ano, o Brasil estava andando no fio da navalha, em plena crise cambial globalizada. Houve uma substituição na presidência do Banco Central, sendo que o substituto permaneceu no cargo apenas alguns dias. Foi logo detonado pela CPI do Sistema Financeiro. A fumaça do tiroteio ainda estava no ar e o presidente Fernando Henrique resolveu chamar Armínio Fraga, assessor de um megainvestidor, o multimilionário Georges Soros. O que os políticos disseram? Em bom popular, que o presidente estava colocando a raposa para cuidar do galinheiro. Ouvi muita gente repetindo essa frase. Deu dó assistir ao Sr. Fraga sendo sabatinado, pelos oposicionistas, no Senado sabatinado não, avacalhado. Ao invés de perguntarem sobre assuntos ligados ao BC, os senadores destilavam um ostensivo ódio ao indicado, praticamente acusando-o do que poderia vir a fazer no futuro, ou seja, usar do cargo para beneficiar seu ex-patrão. Puseram em dúvida a cidadania do Sr. Fraga (sua mãe é norte-americana) e o seu patriotismo. Desconfiaram, com palavras duras, que o Sr. Fraga pudesse deixar de um belo emprego, que lhe rendia milhares de dólares, só para defender o interesse do País.
O resultado é esse que todos estamos vendo. A raposa está cuidando muito bem do galinheiro. O Brasil fechou o ano de 99 com o menor déficit em conta corrente, desde 1997. Os investimentos atingiram US$ 30 bilhões. A inflação não voltou. E o dólar, que tinha estourado, começou a retornar a patamares mais palatáveis e coerentes com a nossa realidade. Decerto, não foi Armínio Fraga o único responsável pelo reequilíbrio. Mas também não foi o pivô da bancarrota que não houve, e que os oposicionistas tanto esperavam.
SAUDAÇÃO AO URBENAUTA Agora, quem tem feito um extraordinário trabalho de popularização da cultura é o jovem jornalista Eduardo Fenianos. A partir da idéia de realizar uma expedição em sua própria cidade, Curitiba, autodenominando-se urbenauta, a bordo de seu jipe batizado de Urbenave Guliver, Fenianos viajou por todos os pedaços, de rios a matos, de favelas a praças, de parques a condomínios fechados. Sem voltar para casa. E durante a expedição, que foi de 2 de outubro de 1997 a 9 de janeiro de 1998, o urbenauta fazia seus registros e diariamente falava com os curitibanos, através de contatos com a Rádio CBN. Poucos minutos, em doses homeopáticas, serviram para Fenianos ir descortinando para os ouvintes histórias e mistérios da capital. Assim, foi resgatando a linguagem e o gesto das famílias de imigrantes, dos vários povos que construíram esta cidade, contando casos pitorescos, informando a respeito da origem histórica dos bairros, de seus moradores, enfim, apresentando Curitiba aos curitibanos e curitibanistas. Terminada a expedição, Fenianos lançou um kit (livro - O urbenauta, editora UniverCidade filme, fascículos, mapas, roteiros) sobre a capital. De lá para cá, continua brindando os ouvintes da referida rádio, desta vez falando acerca de curiosidades sobre os nomes dos bairros, dos monumentos e outros aspectos históricos e pitorescos da cidade.
Os antropólogos dizem que o homem é um ser de localidade. Com esse trabalho, Fenianos tem ajudado a fortalecer a identidade local, e o equilíbrio, dos habitantes com sua terra; tem aquecido a alma desta cidade (que já está perdendo a calma) e com isso derretido o famoso coração gelado curitibano. Em tão curto espaço de tempo, fez mais do que muitos governo em muitos anos, na área cultural do município.
Espero que esteja exportando suas idéias para outras cidades, onde também não se ama porque não se conhece.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba, e substitui o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que está em férias





