Joel Samways Neto
Tanta onda por causa dessa história de ‘‘terceiro milênio-jᒒ, ou para daqui a um ano; saber se a era cristã começou no ano 1 e não num ano zero... Depende do ponto de vista, do critério, do calendário, do monge que fez uns cálculos engraçados, da etnia, da cultura etc. Mas que foi um belo golpe de marketing de sorte, foi. Duas celebrações planetárias, dois réveillons, cada qual intitulado de mais único do que o outro... Grande coisa. Os meninos que nos anos 60 matavam o tempo pensando como estariam, como seriam, no ano 2000, decerto notaram o vazio da mágica que não houve. Para os rebeldes sem causa, o negócio é aguardar as promessas aquarianas. Há quem diga que mudanças mesmo só a partir de 2005... Digressões, digressões.
Boa parte dessas proféticas promessas parecem vir de gente que não está a fim de se responsabilizar pela concretude da história, pelo agora, pelo aqui. Pois são como expectativas de presente de Natal, algo que se pode ganhar independentemente do mérito. Aliás, muito apropriado à mentalidade social nacional, mal-acostumada que foi, durante décadas, ora mais, ora menos, a ver as coisas funcionarem mediante pacotes (pacotes de leis, decretos-lei, atos institucionais, discricionariedades administrativas ou arbitrariedades puras e simples).
Se hoje fosse o ontem, poderíamos responder à pergunta feita nos 1960/70, sobre quem seria o homem do ano 2000, dizendo ele seria exatamente quem ele estivera sendo. Ou seja, menos sujeito do que objeto. Isso poderia ser exemplificado na constatação do professor Lázaro, de História, que dizia para os boquiabertos e espinhentos adolescentes que na França, no dia 14 de julho, a data da chamada Queda da Bastilha era festejada com o povo dançando nas ruas – enquanto no Brasil, na data cívica máxima, o 7 de Setembro, o povo apenas assiste a desfiles militares e agita bandeirinhas, como espectador. Porque esses marcos históricos brasileiros não foram marcos populares, não foram construídos pelos cidadãos. Note-se o 15 de Novembro. O 21 de Abril? Mas Joaquim José era alferes, não era? A Revolução Francesa foi civil; o povo francês, instigado por discursos inflamados de alguns representantes do Terceiro Estado, é que tomou de assalto a Bastilha; o povo francês é que acuou a família real em Versalhes e a fez de refém na volta às Tulherias.
No Brasil, a história tem mostrado a preferência mais pelas quarteladas. Certo, houve movimentos regionais importantes, civis, como as insurreições gaúchas, Canudos, Contestado; porém, não chegaram a ganhar dimensões que comovessem todo este país continental.
Penso que vem daí o comodismo nosso. O segmento fardado, mais cedo ou mais tarde, sempre acabava surgindo para dar rumo às crises. Então, para que se incomodar?
Esses são alguns aspectos da democracia governada, contraposição à democracia governante. Não que eu esteja querendo dizer que para a democracia governar é necessário um levante popular. Não é nada disso. É antes uma questão de atitude essa tal ‘‘saúde civil’’. Atitude dos cidadãos, de respeito às instituições democráticas, às leis, aos direitos individuais e às liberdades públicas.
Se nossa democracia fosse governante, o sistema único de saúde não seria essa vergonheira que é. Os compatriotas que não têm condições de pagar planos de saúde, privados, precisam entrar em acordo com a doença porque o que prevalece é a agenda do SUS. O doente tem de madrugar na fila para saber se poderá ser atendido na semana seguinte. E quando for, se o caso carecer de internação hospitalar, terá de madrugar na fila para saber se haverá vaga na lista de espera. E olhe que saúde é mais básico do que segurança e educação.
Mas a democracia tem sido governada. Entre tantas, uma expressão estupidamente contundente dessa realidade pode ser encontrada em alguns prédios públicos, suntuosos, palacianos, origem de muitos dos maiores escândalos de corrupção na história da República. O homem comum, do público, vê-se constrangido a usar gravata para entrar nesses prédios, construídos e mantidos para, em tese, servi-lo.
Infelizmente, a escola dos nossos governantes não lhes ensinou (ou, se ensinou, eles não aprenderam) nada a respeito das consequências dessa indiferença para com as dores mais pungentes e elementares do povo. Vão ter que aprender com as lições da vida prática.

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