Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Lei da Mordaça
O Ministério Público, em âmbito federal e estadual, tem reclamado da possibilidade de vingar, dentro da reforma do Judiciário, a chamada Lei da Mordaça. Chama de restrição ao desempenho funcional dos procuradores da República, dos procuradores de Justiça e dos promotores de Justiça, integrantes do órgão. Alegam garantias constitucionais como a liberdade de expressão, e opinião e manifestação do pensamento. A seu lado, a imprensa acrescenta que isso representaria a volta da censura, uma violação ao direito de acesso à informação. Talvez tivessem razão, mas observe, leitor, esse fato recém-saído do forno da mídia: o ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, está sendo investigado por improbidade administrativa e por suposto envolvimento na liberação irregular de jogos de bingo eletrônico, e por supostas ilegalidades encontradas em 78 dos 118 convênios firmados entre o Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp) e prefeituras. Nada há de conclusivo, tudo está ainda na fase da investigação, da coleta de indícios, de dados sobre o assunto. No entanto, já é matéria jornalística, que já tem estado estampada nas primeiras páginas de jornais, e ocupado espaço nas rádios e TVs, regionais e nacionais. Há pouco, o ministro Greca decidiu abrir seus sigilos bancário e telefônico, seus e de sua esposa, colocando-se à disposição dos procuradores da República. Nova notícia de primeira página.
INDÍCIOS VEEMENTÍSSIMOS
O interessante é que essa história começou com o depoimento prestado à Polícia Federal pelo ex-presidente do Indesp, Manoel Tubino. Depois disso, o Ministério Público Federal pediu a quebra do sigilo bancário e telefônico de 50 pessoas e 13 empresas, todas sob suspeita de participar de um esquema que permitiria à máfia italiana atuar no ramo dos caça-níqueis no Brasil. Tubino disse: Não acuso ninguém. Apenas denunciei evidências de muitas coisas para serem apuradas, conforme reportagem da Folha de S.Paulo (dia 27). Ainda segundo a reportagem, oito assessores diretos do ministro estavam na lista, devido a indícios veementíssimos.
Ora, não se trata de defender quem quer que seja, assessor de ministro ou ministro. Se houver elementos suficientes, que os envolvidos sejam denunciados pelo MPF, processados e julgados dentro da lei. E se forem culpados, que tomem a condenação merecida. Agora, o caso ainda está na fase investigatória! Estão tomando depoimentos, buscando documentos, reunindo material. Mas a imprensa narra a história no diapasão da queda iminente do ministro. Seu desgaste político já aconteceu haja vista o discurso de seus correligionários, que praticamente estão deixando Greca sozinho.
TRIBUNAL DA MÍDIA
A questão não é criticar as investigações, da polícia ou do Ministério Público até porque são órgãos criados exatamente para investigar, para apurar irregularidades, em defesa da sociedade, da ordem pública. Qualquer cidadão está sujeito a ser alvo de alguma investigação, e então terá de se submeter a todos os rituais inquisitoriais previstos na lei. Não há problema algum nisso. Quem não deve não teme, vai lá e prova sua inocência e pronto, o inquérito é arquivado. Senão, vai prestar contas à Justiça.
A questão é o modo e o momento da divulgação. No exemplo citado, se Greca for inocente, já terá cumprido pena de, talvez, perda do cargo público, ostracismo político, desonra e abalo moral. Se não for, terá passado por tudo isso antes de ter sido julgado e condenado pelo Poder Judiciário. E quando o foco é feito contra um cidadão comum? Todos os dias, parte da mídia mistura suspeitos com bandidos, em fotos, em matérias de jornal e de telejornal. Todos se tornam farinha do mesmo saco. E os inocentes, os absolvidos, serão estigmatizados, sempre lembrados como o fulano que um dia se envolveu com esse ou aquele crime.
LEI DA OFÉLIA
A mesma Constituição que garante todos os direitos e liberdades alegados pelos destinatários da mordaça, também garante que o cidadão deve ser considerado inocente até que seja definitivamente condenado por sentença judicial. O que se tem visto é lá tratamento de inocente? Ora, se todos somos passíveis de indiciamento por qualquer coisa (até denúncia anônima), todos somos vítimas potenciais do julgamento precipitado da mídia um julgamento que não espera a defesa, a réplica, para formar opinião. Quer um outro exemplo clássico? Até hoje tem gente chamando Fernando Collor de ladrão, só que o Supremo Tribunal Federal o absolveu por falta de provas, porque o Ministério Público Federal, com todo o aparato de que dispunha, com a Polícia Federal, com a ação dos partidos de oposição etc., não conseguiu reunir elementos suficientes para demonstrar o suposto crime que Collor teria praticado. O ex-presidente já estava jornalisticamente linchado antes mesmo de o processo de impeachment ter sido instaurado. Pensem o que quiserem, para mim isso não está certo, isso não é civilizado. Proponho que, ao invés de chamarem essa disciplina cívica de Lei da Mordaça, chamem-na Lei da Ofélia para que as autoridades ligadas ao processo investigatório, ou judicial, só abram a boca quando tiverem certeza, e puderem prová-la.
DEVO MAS NEGO
Nada como a história para descrever o perfil dos nossos homens públicos, não? Como ninguém tem uma estrela na testa, atestando virtudes de seu caráter, é necessário aguardar a ação concreta das pessoas para que se possa fazer avaliação. Em política isso é fundamental. Eleitor que se preza não deixa passar essas oportunidades de conhecer melhor os que logo, logo, irão se apresentar ao concurso eleitoral. Vejam o Sr. Leonel Brizola. Firmou um acordo com o PT, estabelecendo que apoiaria a vice-governadora petista Benedita da Silva à Prefeitura do Rio de Janeiro. O PT aceitara compor chapa, na vaga de vice, com o PDT, na disputa pelo governo estadual. E o candidato pedetista venceu. Agora, na hora da mão lavar a outra, Brizola está desconversando o acordo tão anunciado nos comícios de 98. Quer ele ser o candidato do PDT à prefeitura carioca. Tal qual o senador Requião, que, quando governador do Paraná, criou um disque-denúncia para colecionar equívocos do seu rival Orestes Quércia, ambos do PMDB. Hoje, andam de braços dados, como bons cristãos que quando perdoam esquecem as ofensas.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba, e substitui o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que está em férias





