Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
DISCUSSÃO O ex-ministro propôs a criação de um fórum para tornar o negócio do pedágio nas estradas uma ação de democracia governante. O encontro reuniria autoridades públicas e organizações não-governamentais (sindicatos e associações civis). Um evento que deveria ter sido o iniciador do projeto de privatização. Porque os usuários precisam manifestar seus pontos de vista afinal, estão pagando.
As ponderações da sociedade civil não se restringem ao preço do pedágio, elas também envolvem o número e a localização das cancelas. Quanto ao preço, em momento algum houve transparência contábil. De que adianta os concessionários virem alegar que o preço aplicado não está cobrindo nem os custos operacionais. Quais custos operacionais? Em relação à localização das cancelas, quais foram os critérios utilizados para sua instalação? Levaram em conta as peculiaridade regionais, ou simplesmente usaram medidas quilométricas? Há equilíbrio e coerência nesses critérios?
Enfim, os cidadãos que fazem uso das rodovias, em sua maioria, parece-me, estão relativamente conformados com a nova modalidade. Os esclarecidos sabem que não se faz empreendimento privado sem visar lucratividade; mas quando o empreendimento tem uma finalidade voltada para o interesse público, não pode obedecer aos mesmos padrões da livre-iniciativa. Certamente, a maioria prefere uma estrada lisa, bem sinalizada, cheia de telefones de emergência, com serviço de guincho e atendimento médico, e está disposta a pagar por essa comodidade. Mas tem de pagar o que for razoável e conhecer os fundamentos dessa razoabilidade.
Felizmente, alguns parlamentares e a Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná, estão sensibilizados e dispostos a acolher a proposta do ex-ministro. Dê o que der, vingando a idéia do fórum podemos estar inaugurando uma nova mentalidade de administração pública em nosso Estado.
5ª COMARCA Volta e meia, a imprensa faz reportagens da falta de qualidade de vida dos trabalhadores no Estado de São Paulo. Mostram-nos cidadãos que acordam às 4 horas para viajar, durante três horas, até chegar ao seu local de trabalho. E retornam para casa às 22 horas, quando estão com sorte. Convívio familiar pífio, estresse crônico, ataque de nervos iminente. Soma-se a essa realidade os altos índices de poluição atmosférica, sonora e visual. Dantesco, dizemos nós, que, por enquanto, ainda podemos pensar que jamais viveríamos em situação semelhante. Todo esse inferno em troca dos 40% do PIB nacional.
Qualquer um que tenha um mínimo de consciência crítica é capaz de questionar o porquê dessa brutal concentração industrial naquele Estado. E por que não se fazer alguma coisa para espalhar mais essas fontes multiplicadoras de empregos e progresso, diluindo, assim, os malefícios do excesso. Obviamente, porque, em primeiro lugar, o Estado paulistano recebeu do governo federal doses cavalares de dinheiro público, arrecadado em todos os demais Estados-membros da Federação. A hipertrofia veio à custa de subsídio. Depois, no ritmo acelerado, é claro que as empresas preferem se instalar nos lugares onde as facilidades são maiores. Não se instala uma indústria a 1.000 km de onde se vendem peças de reposição, por exemplo.
Com a globalização, empresas estrangeiras passaram a ter melhor acesso a outros Estados brasileiros. E, em razão de sua outra mentalidade, foram valorizadas outras condições mais raras de serem encontradas no São Paulo. Então alguns governos estaduais, como Bahia e Paraná, partiram para uma política ofensiva, no sentido de disputar a preferência das novas indústrias. E têm conseguido, com isso, alterar a geografia industrial no Brasil, e humanizar mais as condições de trabalho. Não é preciso ser economista para entender as vantagens dessa redistribuição. Os Estados que antes eram fornecedores de matéria-prima aos paulistanos e consumidores dos seus produtos industrializado, agora estão alterando substancialmente o nível desse relacionamento. Quem sabe os nordestinos que estão em São Paulo então possam retornar a sua terra natal; e alguns paulistanos venham (como têm vindo) ao Paraná, e outros Estados, para aumentar seu patrimônio de vida.
QUARTELADA PALACIANA É cedo para dizer o que vai acontecer no Equador. Coronéis do Exército e significativa parte da população se aliaram para derrubar o presidente Jamil Mahuad. O presidente disse que não renunciaria e só sairia pela força. Saiu. Em seu lugar, os comandantes das Forças Armadas puseram o vice-presidente que, segundo disseram, vai manter a mesma linha de política econômica (pivô da crise) de seu antecessor. O cheiro é de quartelada palaciana. A democracia latino-americana não tem nada que celebrar.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba, e substitui o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que está em férias





