JOEL SAMWAYS NETO
As razões da crítica
Brasileiro não aprecia críticas. Principalmente as que se dirigem contra suas contradições, seus hábitos, usos, costumes, tradições, enfim, a crítica contra o seu jeito de ser. Obviamente, porque ninguém gosta de ver desarrumada sua arrumação. Talvez haja um pouco do senso de territorialidade aí, caso de estudos proxêmicos. Afinal, não conheço ninguém que fique satisfeito quando alguém entra em sua sala e, no meio da conversa, senta-se sobre a mesa. O interlocutor, se não estiver morto, esquecerá imediatamente o assunto e se concentrará naquelas nádegas alheias abundando em sua organização de trabalho. Duvido que mesmo os mais contidos consigam resistir cinco minutos sem pedir para o invasor sentar-se na cadeira. A crítica, creio, causa esse efeito no público-alvo. Os ‘‘atingidos’’ não querem nem saber das razões, dos fundamentos, da crítica, por mais sensatos que sejam. Quer saber é como o crítico se atrevera, ousara, criticá-lo (assim dessa maneira, levando a crítica já para o campo pessoal). E, não raro, rosnará feito cão diante do transgressor dos limites de sua urina.
Equívoco conceitual. Pensam que criticar é destruir, atacar, apontar os pontos negativos, apenas. ‘‘Criticar é perguntar qual é a proposta’’ (A. Grimm). É isso. O verdadeiro crítico coloca o objeto da crítica na berlinda de sua análise e começa a fazer um interrogatório. Os críticos medíocres buscam esfacelar o que estão criticando. O bons críticos querem entender melhor, e explicar melhor aos outros. Nesse sentido, a crítica se torna um grande instrumento a favor das idéias pretendidas por seus autores. O que muda é o estilo do crítico, é o seu molho. Alguns adocicam, outros apimentam.

CRÍTICA À SOBERBA Quando a crítica se dirige aos governantes, o objetivo é também perguntar a proposta do ato, da decisão, da obra. Se houvesse mais generosamente, entre os gerentes do poder, o primeiro degrau da sabedoria – a humildade – todos sairiam ganhando. Porque se a crítica é banal, esvai-se por si mesma. Se é consistente, observá-la, refletir sobre ela, trará mais abrangência, mais relação, mais identidade com o povo do qual o crítico surgiu.
Sabe-se lá se não caminhou por aí a reunião do governador Jaime Lerner com seu secretariado, na semana que passou. Esta Folha deu que fizeram uma autocrítica, elegendo a arrogância como principal obstáculo ao diálogo conosco. Consta que a teriam espancado. Pode ser. Seis anos levaram para perceber a coisa. Dará tempo para desfazer o tortuoso caminho? Pode ser. Porém, soberba tem a ver com imperfeição da alma, está no bojo ético-moral do que julgamos ser valor e desvalor.
Tratando-se do ser enquanto pessoa, soberba é coisa que ou vem de berço, ou se adquire na luta pela sobrevivência em alta escala. De qualquer forma, é um mal de raiz. Aliás, um mal que se acirra em ambientes palacianos, onde ardem fogueiras de vaidades orgulhosas, e contam muitos pontos na disputa de espaço os ares de condessa. Não duvido que possam superar o tal defeito, até porque jamais se deve perder esperança no ser humano.
Mas... Em negócios de Estado, não ser arrogante significa ver mais, ouvir mais, considerar mais. O último grande estadista que fez isso foi o Mahatma Gandhi, que chegou a presidir o Congresso indiano. Todavia, como se dizia não um santo que queria ser político, mas um político que queria ser santo, abandonou a política. Atualmente, o perfil dos políticos está mais para Winston Churchil do que para Mohandas Gandhi. Espero que as idéias luminosas do ‘‘Chapéu-pensador’’ não sejam uma farsa, porque mentira é ainda mais insuportável do que a soberba.
LIBERDADE DE IMPRENSA A imprensa é, por excelência, um veículo da crítica, é espaço da livre-expressão, da livre-opinião. Vem daí seu compromisso com imparcialidade, que muitos confundem com neutralidade. Ninguém é neutro, nenhuma empresa é neutra, todos têm suas preferências filosóficas e ideológicas. Mas a imprensa, em que pese não ser neutra, há de manter espaço para, imparcialmente, as idéias serem livremente divulgadas. Nem que seja sob a epígrafe de que se trata de matéria assinada, e matéria assinada não representa, necessariamente, a opinião do jornal. Eis um conteúdo bom para se fazer aula sobre ética no jornalismo. Só não esquecer que a imparcialidade, que permite a liberdade, é sempre a imparcialidade e a liberdade do dono, ou dos donos, da empresa jornalística. O presidente norte-americano Richard Nixon não caiu porque dois jornalistas corajosos destrinçaram os meandros do escândalo de Watergate; caiu, fundamentalmente, porque o dono do jornal garantiu que o que eles descobrissem e escrevessem seria publicado. Se fez isso por motivos outros, por amor à oposição, por exemplo, nunca se soube. Oficialmente, foi por amor à liberdade de imprensa.
Se os cidadãos compreendessem o suficiente a necessidade de existirem jornais independentes, não deixariam que os jornais dependessem tanto de verba oficial, do dinheiro gerenciado por aqueles contra quem as críticas são mais arremessadas. Os cidadãos tratariam de manter o ‘‘seu’’ jornal, à custa de assinatura, publicidade privada ou compra de ações. Desafio dificílimo neste país de não-leitores (até nos cursos de direito, queixam-se os professores, há alunos reclamando da leitura obrigatória!).
ONGS POLICIALESCAS Ontem, nesta Folha, reportagem de Mauricio Della Barba deu conta de que uma dona-de-casa levou onze anos para ver na cadeia o homem que matou seu filho. O rapaz foi morto com um tiro disparado por um comerciante, dono de uma sacaria em Londrina. Condenado pela Justiça, em 1997, até agora não havia sido preso. Estava foragido e por isso o mandado de prisão não era cumprido. Pois a mãe da vítima ‘‘foi atrás’’, descobriu o paradeiro do sentenciado e avisou a Polícia.
Não é novidade essa história de os cidadãos assumirem a segurança publica com as próprias mãos. Há Estados brasileiros que estão criando organizações não-governamentais, e se associando, criando uma rede de serviço voluntário para localizar pessoas desaparecidas, presos fugitivos, sentenciados foragidos. Está certo que a Constituição estabelece que segurança pública é ‘‘direito e responsabilidade de todos’’, mas daí a concordar que cidadãos comuns ponham a mão na massa da marginália e ajam feito detetives honorários, não me parece adequado.
O que parece é que se cidadãos comuns, donas-de-casa, são capazes de fazer, com competência, parte do serviço que, a meu ver, seria exclusivo da Polícia, algo não está funcionando bem no poder público. Note-se: a comunidade se organizou e passou a agir onde a Polícia não agia. Não agia porque não podia ou porque não queria.. Ora essa. Segurança pública é parte do tripé básico dos compromissos entre Estado e sociedade: é segurança, saúde e educação. É elementar, elementar. Se não há gente bastante nos departamentos de Polícia, se não há viaturas suficientes, se não há equipamento que chegue, então convém aos governantes repensarem suas prioridades de governo. Pois é simplesmente absurdo imaginar como normal que os cidadãos passem a formar patrulhas – como têm feito, principalmente em torno das escolas – e cuidar da defesa contra o crime. Se os governantes acham isso normal, então que os legisladores tenham a decência de cortar a alíquota dos tributos que todos pagamos. Com a economia poderemos, ao menos, fazer um bom seguro de vida.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba, e substitui o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que está em férias