As milícias do MST
Joel Samways Neto Prosseguem as ações paramilitares do Movimento dos Sem-Terra (MST). Suas milícias, formadas também por mulheres e crianças, em sua última operação – para a imprensa ver e divulgar – foi acampar – fazer zona de reunião (‘‘Zreu’’) – diante da fazenda do presidente da República, semana passada, em manobras pré-invasão.Não foi mera coincidência esse rasgo de ousadia em Buritis, no Estado de Minas Gerais, ocorrer justamente durante uma viagem internacional do presidente Fernando Henrique. Era preciso criar algum fato político para tentar nublar os invariáveis êxitos que são essas viagens do presidente. Então, o MST, articulado com jornalistas engajados, aqui e lá fora, fez uma tentativa de gerar ao menos uma fotografia contraditória ao desempenho do presidente junto à imprensa mundial. Se atingiu, ou não, esse objetivo, isso não é tão importante, para nós, brasileiros, quanto a truculência do método e a petulância do Movimento.
O MST pode ter personalidade, qualquer uma, menos a jurídica. Não é um partido político, não é uma sociedade, nem uma associação, nada, não tem cadastro na Receita Federal (embora receba dinheiro; talvez, quem sabe, até do estrangeiro), não está registrado em cartório, não recolhe tributos de nenhuma espécie, não carece de alvará para funcionamento. No entanto, move-se. Um movimento autoproclamado ‘‘legítimo’’, apesar da informalidade de sua origem. Um movimento que age como bem entende e sua massa de inocentes úteis não obedece outra lei senão a que rege suas relações internas. Ganha um doce quem encontrar algum outro movimento semelhante, e com a mesma autogestão e auto-extensão que esse.
Em Buritis, os milicianos do MST aprontaram uma ação emblemática: saquearam um caminhão que saía da fazenda do presidente, subtraindo para si, mediante ameaça, todas as sacas de adubos e sementes que eram transportadas. Tudo sob os olhares complacentes dos policiais da PM mineira, enviados ao local para compor a paisagem. Deu nos jornais, deu na televisão, deu nas rádios. Aos infelizes policiais restou a humilhação de serem totalmente ignorados enquanto a conduta criminosa era calmamente perpetrada. Certamente, um reflexo da política de segurança pública do governador de Minas, o mesmo que mobilizou tropas dessa polícia social para fazer maneabilidade ao redor de Furnas – uma bravata contra a privatização do setor elétrico. Decerto os policiais mineiros, depois desse desprezo, irão consultar psicólogos.
Até enquanto escrevia este texto, a imprensa comentava que os milicianos do MST, em sua tática de pressão, estavam se reunindo para decidir qual seria a sequência da operação – discutindo, inclusive, a hipótese de invadir a fazenda! O objetivo é óbvio: tentar deprecar a dignidade e a autoridade presidencial.
É o mesmo que está acontecendo em Curitiba, com o verdadeiro quartel que os milicianos do MST ergueram, a 100 metros rasos do gabinete do governador, do gabinete do presidente da Assembléia Legislativa e do gabinete do presidente do Tribunal de Justiça. Vez ou outra, para aquecer a tropa, eles se deslocam pelas ruas da capital para invadir o prédio da prefeitura, ou o do Incra. Qualquer hora dessas eles vão inspecionar os banheiros do Palácio Iguaçu.
Como estão conseguindo os milicianos do MST permanecerem por cerca de meio ano ocupando, por esbulho, uma praça pública? Alguns dizem que é por causa da omissão das autoridades municipais e estaduais. Não é verdade, essas autoridades estão agindo, sim. Todos os dias, graciosamente, caminhões da Prefeitura Municipal vão ao tal quartel esgotar os dejetos das latrinas de campanha; continua admitida a utilização de luz elétrica (que começou com uma gambiarra clandestina); continua o fornecimento de água tratada; continua à disposição o serviço médico, com ambulância; só não tenho certeza se os mantimentos vêm de cestas básicas dos referidos governos ou de doações. Portanto, a única omissão dessas autoridades constituídas é estarem faltando com o respeito aos demais cidadãos, na medida em que fazem de conta que não leram as Constituições Federal e Estadual, que juraram cumprir quando tomaram posse no cargo.
Essa falta de respeito fará aumentar a simpatia das pessoas por declarações como a do general Alberto Cardoso, ao comentar o deslocamento de soldados do Batalhão da Guarda Presidencial para Buritis. Ele disse que o MST tinha chegado a um limite, e que não iria ultrapassá-lo.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado, em Curitiba

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