Mídia & Indução da violência
Joel Samways Neto
Há algo de diferente em homicídios praticados dentro de um cinema, com tiros de metralhadora semi-automática. Principalmente quando o suposto homicida e suas vítimas são todos integrantes da classe média e classe média-alta, que frequentam universidade e são considerados ‘‘incluídos’’. Que outras peculiaridades pode ter um episódio desses? Será o fato de o referido cinema estar situado numa sala de um shopping center, oásis de alegre e seguro consumismo, no deserto pétreo da sociedade de massas?
A indagação é cabível na exata proporção do espaço que a mídia lhe concede. Afinal, temos tido, no mínimo, uma grande chacina por semana, perpetrada por quadrilhas de narcotraficantes. Só que não merecem mais do que meia página de jornal, alguns segundos na TV e um pouco mais do que isso nas rádios. A coisa não comove mais, não chama mais a atenção; logo, não vende como vendia no começo. Resultado da banalização promovida pela crônica policial, conforme dissera Michel Foucault, que também anestesiou a sociedade brasileira. Crimes vitimando adultos ganham destaque desde que tenham algum requinte de perversidade, do contrário não causam nem cócegas. Foi o que aconteceu também em relação às chacinas com crianças. A da Candelária ficou famosa. Repercutiu na imprensa mundial e envergonhou o País. Porém, chacinas contra a infância foram se repetindo. Hoje, para ficar fora do trivial precisa trazer alguma surpresa qualquer. Tudo fruto da superexploração dos meios de comunicação, que abusam demais das tragédias humanas. Esgotam o assunto e o destinatário da mensagem, a ponto de ninguém sentir indignação ou nem querer sequer ouvir falar do assunto.
Já tivemos a semana das vítimas de balas perdidas, as semanas das vítimas do motoboy maníaco sexual, a das vítimas de assassinos incendiários, a das vítimas das gangues infanto-juvenis que aterrorizam na escola etc. E, sempre atrás do fato, vinham correndo as autoridades (in)competentes, a instalar ferrolhos nas portas arrombadas e a prometer políticas de segurança pública – outra grande banalização! Agora, esta é a semana do crime no shopping. Obviamente, esses horrores não são exclusivo produto interno bruto brasileiro, para exportação. Violência gratuita ou onerosa há no mundo inteiro. Todavia, na parte mais civilizada do planeta, as autoridades constituídas estão começando a pesquisar as variáveis em torno desse tipo de problema social. E alguns, como é o caso dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha, estão se propondo a criar leis mais severas. Leis que envolvam, sim, a ética dos meios de comunicação. E não vai ser essa empulhação de ‘‘auto-regulamentação’’. Porque, nesses países, percebeu-se um efeito multiplicador, indutor, de condutas criminosas na forma de divulgação das notícias policiais. A ponto de, em alguns Estados norte-americanos, pretender-se simplesmente impedir a divulgação. Obviamente, empresários do setor de informação jornalística chamarão a isso de censura – ao que os parlamentares e organizações civis de defesa da cidadania, lá, replicarão que a segurança pública vem em primeiro lugar. É o início do processo condenatório do show de horrores, o escracho, da crônica policial.
Na realidade brasileira, podem notar nesse caso do crime no shopping, o espetáculo é um monumental abuso contra os preceitos mais elementares da dignidade humana. A imprensa está esmiuçando o quanto pode a respeito da vida pessoal do indiciado; está tentando arrancar entrevistas sensacionais dele, de seus abalados pais, de seus professores e de seus amigos. É, de novo, tal qual fizeram com o motoboy portador de psicopatologia, a recriação do anti-herói. Quer dizer, o sujeito é suspeito, indiciado ou acusado de ter cometido um crime horrível, que a sociedade inteira reprova, e, no entanto, a imprensa lhe dedica um espaço-tempo imenso, digno de um herói nacional. Durante dias vai ser assim, o público telespectador, leitor ou radiouvinte irá engolir a fama mercadológica, pré-fabricada, do suposto criminoso. O efeito indutor desse processo irresponsável é devastador. Apenas os países, como o Brasil, onde a ciência estatística é fraca, não conseguem perceber. (Houve pelo menos mais dois episódios semelhantes ao caso do motoboy, depois que a imprensa passou a cobrir a história do ‘‘maníaco do parque’’. Ninguém deu bola para esse desdobramento.) E decerto a imprensa também vai pressionar pelo respeito aos direitos humanos do suposto assassino, enquanto que os familiares das vítimas só terão sido lembrados por alguns segundos de chorosa comoção.
A prudência recomenda cuidado ao frequentar locais públicos nos próximos dias.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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